Em seqüência ao artigo de quatro semanas atrás, e para manter aquecido o tema que logo voltará à programação do GEA (Grupo de Estudos sobre o Amor: www.blove.med.br), voltamos ao debate sobre o suposto desaparecimento do romantismo nas relações amorosas.
Procuraremos discutir os aspectos que efetivamente representem prejuízo para a essência dos sentimentos e a fruição do prazer, pois observamos especulação consumista que reverbera aqui e ali sem maior importância.
Temos a tendência de associar o nível romântico dos pares com a qualificação do vínculo do casal. Aguarda-se um panorama favorável e certa garantia de felicidade para os que se apresentam com mais ternura e maior volume de sonhos.
No entanto, há casais de postura mais seca, embrutecidos, com raros momentos de entusiasmo romanesco que se sustentam estáveis e seguros, por longo tempo. De outro ângulo, temos aqueles que se esmeram em atitudes românticas e que quase não permanecem juntos.
É fundamental lembrar que reformas e atualizações nem sempre são percebidas por parte da população. Surgem transformações culturais, mudanças comportamentais, mas a pessoa segue fixada no conflito de gerações, só identificando o estilo romântico nas equivalências do seu antigo namoro.
Hoje, um namorado pode sentir profundas inspirações que incentivam o seu romance, mas não praticá-las. Ora para não ser confundido com o estereótipo de mais velho, ora porque segue um apelo modista capaz de desviar o rumo dos seus sentimentos.
De qualquer maneira, surgem novas formas de expressar o romantismo. Uma das comunicações mais em dia com a modernidade são os recados pela internet. Por exemplo: “poesias e pensamentos”, “saudades”, “eu te amo”, “vales de amor” são alguns dos tópicos de grande tradição romanesca que o usuário dispõe na seção “Amor” do “Uol-cartões”.
As inovações de base científica, as fórmulas oportunistas e a moda consumista vão sugerindo modificações de costumes. De repente, o estilo romântico vira brega. A impressão de algo démodé pode realmente assustar muitas pessoas, fazendo com que elas evitem aproximar-se do clichê e da cafonice.
A boa informação também pode ser conflitante. A Nutrologia indica: o café-da-manhã é a mais importante refeição e o jantar deve ser leve. Se você está em enlevo amoroso e se espelha em atitudes românticas, quer viver com o amado os mais idílicos momentos. Como conciliar a boa saúde e o idílio? O cenário lírico para uma refeição à luz de velas, intimista, regada a bom vinho, poderia ocorrer no clima de uma luminosa manhã?
Muitos autores e os meios de comunicação apontam a fragilidade dos laços afetivos atuais, parceiros envolvendo-se sem compromisso, encontros casuais, sexo anônimo. Retomando o foco do debate sobre o pensamento de Flávio Gikovate - ele diz que o amor romântico está com os dias contados, inapelavelmente - temos outra perspectiva.
Entendemos que, ao lado dessas relações fugazes, existe um outro contexto. Há pares que se dedicam ao romantismo contemporâneo, atitude renovada de tentar a realização dos sonhos, cada um empenhado pela felicidade do outro, com todo o lirismo e a ternura imagináveis, mais uma forte dose de erotismo.
Aí está a diferença essencial: o sexo.
A cultura falocentrada e sexista conecta a pessoa romântica à ingênua sonhadora, prisioneira da utopia platônica e com uma expectativa de enlace feminino. Isso compõe uma união espiritual, um êxtase de alma que castra os corpos.
O par romântico de hoje não renuncia ao prazer corporal. Ao contrário, devota-se ao culto da libido de modo indefectível, sem tolerância para o moralismo envelhecido.
O romance não falece, pede mais que a alma, exige o corpo, renasce encarnado...