No meu texto da semana passada, devido às peculiaridades da revisão editorial, houve uma alteração de título que não permitiu aos leitores entenderem a sigla M. S. F. que apareceu em um dos últimos parágrafos. Como o artigo suscitou dúvidas e comentários diversos, retomo o tema procurando responder as perguntas e esclarecer o mal-entendido.
Portanto, no último sábado, ficamos com a apresentação “A Disfunção Erétil”. Se, de um lado, isso criou alguma divergência interpretativa, foi o que abriu os horizontes para ampliarmos a compreensão do erotismo independente do falo. Essas iniciais jocosas do M. S. F. significam: “Movimento dos Sem-Falo”. Trata-se de uma provocação, uma ironia, mas com intenção bem deliberada.
A perspectiva sugerida é a de combater vigorosamente o sexo que se influencia pelo falo e favorecer o que se exerce simplesmente pelo pênis desobrigado de desempenho ou exibição de virilidade.
De modo paradoxal, quanto mais dedicado ao funcionamento viril, mais o homem se vulnerabiliza. Durante séculos estivemos estressados com esses mitos de força masculina representada pelo pênis ereto (o falo).
Felizmente, a palavra que significou esse problema já saiu do vocabulário médico: impotência. Vigorou até há pouco tempo, afetou dramaticamente muitos homens e seus pares. Infelizmente, porém, ainda mantém uma reserva rançosa, um valor especial entre os machistas mais resistentes.
É quase surreal lembrar que todos os distúrbios dos diversos órgãos do corpo humano são qualificados com o termo “insuficiência”, menos o sexual. Assim, do coração, vem a insuficiência cardíaca; do rim, a renal; do pulmão, a pulmonar e sucessivamente. Em relação ao genital, a impotência prevaleceu de maneira absurda. Por fim, nas últimas duas décadas, essa idéia inconveniente e infausta tem sido progressivamente abandonada.
O pênis ereto não é músculo que se hipertrofia aos esforços, não é um sistema de robustez nem de demonstração de poder; é apenas um simples órgão preenchido por sangue enquanto acompanha a excitação sexual e o clima erótico. Não pode e não deve ser alcunhado de “potente”.
A política do Movimento Sem-Falo propõe exercer a sexualidade masculina sem valorizar o pênis pela “potência”. O M. S. F. relega o tamanho do órgão, despreza a ereção exibicionista, o padrão antigo de desempenho sexual implicado em quantidade de relações e a diversidade de parceiras sem respeito aos seus sentimentos. E exalta defender o aprimoramento da qualidade erótica e afetiva do encontro íntimo. Equivale a um novo ajuste ético, seja em relações casuais ou promitentes.
Espontâneos e naturais em relação ao pênis, os pares menos focados nos genitais podem se voltar mais para a alma, dar atenção a seus afetos, confirmando se há amor na relação ou se ela se restringe apenas ao desejo.
A sugestão de usar artefatos como o vibrador não é uma motivação fetichista, como pensaram alguns leitores. Os fetiches podem ser usados, são acessórios divertidos, mas o vibrador é uma maneira de provocar diretamente o falo.
Há muitos homens que se sentem desafiados pelo vibrador. Este é interpretado como um homorrival que tomará a preferência da mulher. Se fôssemos levar essa impressão à última conseqüência, sem dúvida, a máquina seria a vencedora.
O importante é que o homem menos convencional, partidário do M. S. F., iria para o sexo com o pênis mais liberado do falo, desencanado da ereção e usaria o artefato como acréscimo erótico, nunca como uma concorrência.
Nessa projeção, uma verdadeira disfunção erétil corresponderia apenas às causas orgânicas (insuficiência circulatória, diabetes). E uma disfunção fálica equivaleria à sustentação psicossocial do famigerado poder masculino.