Além dos ranços sexistas que ainda interferem na sexualidade atual, temos que lidar com circunstâncias conservadoras e valores tradicionais de uma ordem moral extremista que sustentam algumas barreiras de difícil transposição.
A censura moral persegue o sexo desde a queda do Império Romano (séc. 5). Oficializada como religião desde o século 4, a Igreja Católica foi assumindo essa censura.
Michael Flocker esclarece: “Foi só quando o cristianismo tomou conta da situação e Roma começou o seu histórico declínio que o sexo passou a ser associado à culpa, pecado e vergonha. Os cristãos associaram a queda dos romanos ao sexo e ao prazer, e com o tempo as entediantes práticas da abnegação, abstinência e autotortura assumiram o seu lugar... O sexo ficou sendo um ato sujo, vergonhoso, que só devia ser praticado em caso de extrema necessidade”.
Tal panorama permaneceu até o início do segundo milênio. No final do século 11, os trovadores europeus começaram a germinar o amor romântico, uma espécie de oposição liberal discreta ao domínio católico que regrava o casamento já com características muito semelhantes ao que ainda se vê hoje.
O amor cortês entremeou a leveza do romantismo artístico com a carga do sadismo espiritual. O trovador arriscava com a ousadia de oferecer sua música a uma dama inacessível e sofria ao confirmar uma submissão de vassalo.
Na arte em geral, especialmente literatura e música, esse contexto paradoxal dos romances sustenta os enredos. É deleitoso acompanhar o caráter renunciante e obstinado, a etiqueta respeitosa, o cavalheirismo devotado e o heroísmo revolucionário dos personagens.
Os cavaleiros românticos puderam oferecer vários valores de ordem moral na época, tais como a coragem, a generosidade e a lealdade, mas o sexo seria um ato descortês.
A expressão do afeto não podia conter uma subtração erótica, o que interferiu muito tempo nas relações, fazendo supor que o sexo sem amor fosse aviltante para as mulheres. Hoje, isso está quase superado, mas ainda existem homens e mulheres que não aceitam o pênis na cortesia amorosa.
A sociedade em transformação cíclica oscila entre etapas moralmente rígidas (radicalismos antigos, como a Inquisição medieval, mais recentemente, no século 19, a época vitoriana) e movimentos liberais (certos tópicos iluministas da Revolução Francesa, a contracultura hippie do século passado).
A evolução cultural repara alguns equívocos, mas prestigia certas memórias aborrecidas, perpetuando conceitos que já deveriam ser reformados. Entre esses, valeria refletir sobre as diferenças essenciais entre moral e moralismo, esclarecendo aspectos da tendência viciada que mistura essas noções.
O professor de filosofia Fernando D’Oca indica: “Infelizmente, ao homem de hoje falta moral e sobra moralismo (...) e tais expressões são confundidas (...). Entre a moral e o moralismo há um verdadeiro abismo. Alguns ismos, acrescentados como sufixos, dão um sentido pejorativo à nova palavra formada (...). O ismo denota uma espécie de desvalorização (...). Moral levada ao extremo passa a ser um moralismo. O moralista parece ser um indivíduo que se encontra acima do bem e do mal (...), julga-se digno, mesmo muitas vezes sendo totalmente incapaz de ser um formador de opinião (...), alguém que legisla sobre a vida dos outros. Quanto mais moralista se é, menos moral se tem! O moralista só prega para os outros, é um completo hipócrita (...). Lvar o discurso moral ao extremo (...), reduzi-lo à não-racionalidade das ações, coloca em xeque toda a possibilidade de se ter uma legítima doutrina moral, baseada em princípios e valores flexíveis e raciocinados, e não apenas em sensacionalismos emotivistas ou em puritanismos baratos.”
Fechando essa primeira década do século 21, o sexo, com as prevenções recomendadas e sinceridade consensual, é um convite respeitoso e nobre.
1. benedita ap baptista
17/03/2010
Talvez infelizmente para mim, sou uma dessas pessoas que oscila entre noções moralistas que me foram incutidas na infancia e uma tentativa de ousar mais no sexo com meu marido (é claro) mas é difícil derrubar tabus incutidos na mais tenra idade.Independente disso, minha família tem e transmite bom carater , sempre!Um abraço!