A tradição da temporada de Carnaval é de que as pessoas afrouxam suas regras morais para entrar em um clima mais liberal e exercer conduta lasciva ou despudorada. Em salões ou nas ruas, um corpo de mulher quase despido, os genitais masculinos alternando tapa-sexos mais ou menos ousados, a mídia empenhada em divulgar exibicionistas, suposições de que existe grande aumento no número de partos nove meses depois do Carnaval criam alguns mitos que se sustentam folcloricamente pelo tempo.
As campanhas para que sejam usados preservativos embutem também um alerta de que as DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) se alastrariam nesta época.
Um trabalho divulgado recentemente, em meados de janeiro, realizado pela UFF (Universidade Federal Fluminense) é muito interessante e útil por contestar muitas dessas lendas. A ginecologista Wilma Arze, uma autora do estudo, comenta: “Todo mundo acha que o Carnaval é a liberação geral, mas as pessoas estão se contaminando a todo momento, durante todo o ano, não há uma relação específica com a festa”.
O levantamento avaliou mais de 11 mil prontuários de pacientes atendidos no setor de doenças sexualmente transmissíveis da UFF entre os anos de 1993 a 2005. Selecionaram, então, 2.646 pessoas que haviam sido atendidas pela primeira vez no local e tinham os sintomas de sífilis, gonorreia ou tricomoníase. Essas infecções foram escolhidas porque têm um período de incubação (tempo contado entre a contaminação e o aparecimento dos sintomas) bem definido e não muito longo.
Se o Carnaval estivesse relacionado ao aumento da incidência dessas doenças, o número de casos deveria ser maior em períodos imediatamente posteriores à festa: fevereiro, março e abril, já que em 11 dos 13 anos analisados a festa aconteceu no segundo mês do ano. Não foi o que se observou: os picos de ocorrência de gonorreia e sífilis aconteciam entre julho e agosto. Em relação à tricomoníase, essa concentração se dava entre junho e julho.
Quanto à gravidez, foram analisados, com base nos dados do SUS (Sistema Único de Saúde), o número de partos ocorridos na região metropolitana do Rio de Janeiro e no Brasil de 1992 a 2005 e, em Niterói, de 1995 a 2006. A conclusão foi a mesma: o Carnaval não influencia o número de nascimentos ocorridos no país. Isso porque o pico no número de partos ocorre em maio. Considerando uma gestação de nove meses, a maioria dos bebês teria sido gerada em relações sexuais ocorridas em agosto do ano anterior.
Segundo os pesquisadores, o estudo mostra que as campanhas de incentivo ao uso de preservativos e práticas de sexo seguro feitas pelo Ministério da Saúde são ineficazes, por se realizarem pouco antes da festa. Essas campanhas, para alcançar bons resultados, devem ser contínuas durante todos os meses. Do contrário, fica a suposição de que a prevenção é importante apenas nesta época, vulnerabilizando a população às DSTs em geral, já que as campanhas não se consolidam em outros períodos do ano.
Pesquisas como essa trazem um esclarecimento exponencial à população e vão derrubando mitos que se arrastavam pela vida cultural brasileira.
O nosso Carnaval, especialmente o das cidades tradicionalmente fortes em escolas de samba, desfiles e concursos, deve ser cada vez mais incentivado como período de investimento turístico, do mesmo modo como acontece em um feriado associado a fim de semana que pode arrecadar dinheiro para uma estação de água, um município com praia. E cada vez menos lembrado como período de lubricidade e desgarrão moral.