O filho gay


01/02/2010

Recentemente, conversei com um jovem jornalista que trabalha em revista para homossexuais, participando de uma entrevista interessante que indicou vários aspectos da angústia por que passam os filhos que pretendem revelar sua orientação sexual minoritária para os pais.

Como também observo na clínica, essa etapa representa um enorme sofrimento tanto para o descendente que quer aliviar a pressão, não mais fingir comportamentos que atendam aos tabus parentais, quanto para os genitores que, em geral, se sentem muito estressados e perdidos diante da revelação.

Em todo confronto de gerações, sabemos que existem pontos de desacordo e dificuldades de adaptação. Uma noite, o filho chega da balada bêbado, vomitado e sujo de lama; noutro dia, a menina conta para a mãe que fez sexo pela primeira vez; ou então, aparece uma ponta de baseado no bolso da camisa do rapaz; em outra ocasião, a escola convoca uma reunião com a família para mostrar que a aluna deverá repetir o ano. Sem dúvida, são tópicos difíceis. No entanto, parecem formar um todo compreensível, tolerável, muito menos dramático do que o impacto de um filho se declarar gay.

O preconceito quanto à orientação homossexual é enraizado, extenso e intenso. Na minha experiência, é ainda pior no caso dos homens, nos dois polos: desaba sobre o garoto que se revela e sobre o pai. Em geral, a mãe é bem mais acessível à ideia, bem como também é maior a tolerância paterna com a menina que se assume lésbica.

Os ranços machistas e falocráticos ainda repercutem bastante nos anseios dos machos. Em várias oportunidades, a mãe é informada, mas o pai, não. Há filhos que já vivem um casamento homossexual, porém, quando vão à casa da família, apresentam o companheiro para o pai como se fosse um amigo.

O moço que anseia sair do armário na família precisa levar em conta alguns aspectos importantes. Às vezes, o custo da revelação pode ser muito maior do que o benefício, especialmente quando ele não tiver um entusiasmo espiritual legítimo. Assumir a homossexualidade para os pais exige previamente alguns cuidados essenciais. É muito importante que o rapaz se questione em algumas perguntas.

A primeira: estou me revelando para agredir meus pais? Conforme o modo e o tempo em que esteve se sentindo constrangido pelos pais, o filho pode recorrer à revelação para se vingar. Isso costuma gerar defesas agressivas nos pais e as represálias podem impedir a harmonia.

A segunda: se sou bissexual, vou saber informá-los dessa minha orientação sexual ou eles pensarão exclusivamente que sou homo? Há uma tendência de se confundir essas orientações. Por exemplo, quando um homem casado, que gerou família e tem vida sexual ativa com a esposa, decide assumir um namorado, é visto como gay. O lado heterossexual é esquecido, poucos o identificam como deveriam, ou seja, um bissexual.

A terceira: vou falar com os meus pais só porque meu amigo falou para os dele, por uma imitação modista? Aquele entendeu que era a hora de comunicar aos pais, mas isso pode ter funcionado só para ele.

A quarta: vou falar por algum compromisso político com a bandeira do arco-íris? No embalo das reafirmações de identidade homossexual, o filho pode se encorajar e expor sua sexualidade em momento equivocado e desnecessário.

Por seu turno, os pais não devem associar a bi ou a homossexualidade com suas falhas (“onde foi que eu errei?”). É muito melhor procurar a compreensão da diversidade sexual como um fato personalístico, uma originalidade da pessoa em meio à trivialidade dos seres humanos.

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