Setentinha...


14/12/2009

A minissérie Cinquentinha, atração da TV Globo prestigiada pela audiência, apresenta realmente aspectos atualizados das mulheres maduras. Um equívoco, talvez por força da popularização que facilitasse a compreensão e da luta pela audiência, foi a sugestão do título. Ainda que a intenção primeira tenha sido referência à disputa pelo quinhão de 50% de uma herança, a associação imediata que o espectador faz é a respeito das idades das protagonistas. Mais ainda por conta da personagem que esconde o número real de seus anos até de si própria...

Pensar nas mulheres maduras que vivem esse enredo com idades em torno de 50 anos limita o alcance do contexto aplicado à realidade atual. Esses limites estão em outra dimensão.

O mundo de hoje tem extraordinárias perspectivas e tremendas contradições. Observamos desde concessões para condutas consideradas imorais há menos de duas décadas até dogmas de antigas tradições sendo rigorosamente repetidos. Convivemos com os pares de um casal liberal pós-moderno que frequenta casas de swing e com os que se exigem pureza virginal até o matrimônio abençoado em sua seita.

A transformação é rápida e imprevisível, acelerada pelas novidades tecnológicas e pela exuberância dos meios de comunicação.

Entre o sexo claramente explícito dos filmes pornográficos e a sutileza da sedução implícita em obras eróticas, as possibilidades e diversidades são enormes. Anseios voyeuristas e fetiches exibicionistas repercutem nos reality shows, nas câmeras de segurança pública e na espionagem privada.

Esse horizonte descortinado e induzido pode confundir os inibidos - e mesmo os pervertidos - que se animam a empreender atos corajosos e alternativos. Um moço declara sua homossexualidade para os pais e sai do armário definitivamente, enquanto outro solicita acolhimento em determinada igreja evangélica que divulga capacidade de curar gays. Um pedófilo arrisca uma visita domiciliar a uma criança que conheceu virtualmente. A exposição vence desafios, mas pode enfraquecer os envolvidos. Felizmente, apesar do perigo em aproximar o algoz da vítima, permite os flagrantes dos crimes.

As alternativas sustentam chances de minorias se ajustarem e respeitam as maiorias que fruem das boas convenções. Há relações de ordem muito variada, romances tradicionais com heroísmo cinematográfico, vitórias interraciais, casos banais, pansexualidade, sexo de pouco charme, noites sofisticadas e os assexuais.

Nessa miscelânea, temos a grata satisfação de notar que correm soltas algumas praxes contemporâneas construtivas: as relações de idades aleatórias e novas iniciativas femininas.

Mulheres mais velhas do que os seus homens (já pude trabalhar com casais onde eles são 20, 25 anos mais novos) formam relações estáveis. Outros pares que não valorizam suas distintas faixas etárias experimentam sexo casual, episódios curtos (um fim-de-semana na praia), mesmo sem expectativa de se encontrarem de novo.

Mais concentradas na sexualidade, há mulheres maduras que procuram tratamentos para os seus homens. Isso é revolucionário, pois eles é que estiveram monitorando o sexo conjugal nos últimos tempos. Nos consultórios dos ginecologistas, elas podiam levantar a queixa de que os maridos não estavam sexualmente bem, mas não iam ao fundo da questão. Agora, chegam até a acompanhá-los nos urologistas e sexólogos, onde conseguem apontar o problema.

Contestando padrões sexistas (do machismo e do feminismo), não se submetendo aos exageros da ditadura da estética feminina (evitam engordar, fazem uma pequena tatoo), mantendo as suas tradicionais virtudes espirituais e readaptando os seus corpos para o erotismo (não precisam ser jovens nem perfeitas para dar e ter prazer), as mulheres ressuscitam para o sexo e reativam o habitual poder amoroso.

Não só as de 50, também as de 60, 70 ou mais, e as bisavós criam o imponderável universo dos amores senis.

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