Traição: o segundo erro


30/11/2009

Nas demandas de infidelidade conjugal em países de tradição judaico-cristã, existem muitos estereótipos moralistas. Entre eles, a referência “segundo erro” para indicar a confissão do cônjuge que traiu. O primeiro erro, evidentemente, seria viver uma relação fora do casamento. Reflitamos sobre esses paradigmas.

Na maioria das vivências extraconjugais, há a impressão de se formar um triângulo amoroso, pois o traidor buscaria fora o que está faltando dentro do relacionamento. Muitos exemplos confirmam essa hipótese: a mulher se encanta pelo amante polido, cansada das brutalidades do marido tosco; o homem se atrai pela amante voluptuosa, enjoado da dor de cabeça da esposa recatada.

Na triangulação, os vértices envolvidos se organizam em um tripé: se faltar um, o sistema cairá. Assim, a moça tratada com toda educação pelo cavalheiro eventual tenderá a suportar mais a grosseria cotidiana do esposo. Se tirar o amante, suportará menos o companheiro. Nessa montagem, de modo inconsciente e inadvertido, a terceira pessoa dá um jeito na relação, estabiliza um casamento.

Por outro lado, um cônjuge ou namorado pode não sentir ou entender que haja falha ou falta importante na relação, não lhe parecendo existir nenhum vazio decisivo na segunda pessoa. Mesmo assim pode interessar-se por uma terceira. É como se a carência estivesse nele próprio, e não no relacionamento, não no companheiro estável.

Uma moça feliz, bem casada, vivendo sem queixas com marido e filhos, reencontrou um ex-namorado depois de quinze anos. Ela reviveu um intenso desejo, fez sexo mais prazeroso do que no passado, repetiu o encontro algumas vezes. No casamento, nada faltava, estava satisfeita. Durante o tempo em que esteve se encontrando com o outro, manteve o entusiasmo erótico pelo marido. Talvez ela tivesse uma facilidade hedonista para se erotizar, uma espécie de “gula carnal”. É muito difícil afirmar se isso equivale a uma amplitude vital ou uma carência pessoal. Na interpretação moralista, conservadora, é algo devasso, indecente; na visão de vanguarda, é saudável, livre...

Sem a busca triangular de faltas, a referência de traição não se sustenta, perde força ética, mesmo que seja considerada imoral. Aquele que se encontra com alguém fora da relação estável, nessas condições, não a está suplementando ou complementando. Não tem queixas, nem antes nem depois de experimentar outra pessoa. Não há o que “confessar”.

No triângulo, quando o traidor faz uma confissão está dizendo para o traído o que deveria ser dito antes.

Se a mulher do grosseirão passasse o recado: “você é rude, gostaria que me tratasse com bons modos”, hoje não precisaria confessar a infidelidade. Relatar a aventura com o parceiro romântico e educado equivale a qualificar o marido com adjetivos opostos.

Provavelmente, o homem não trairia a esposa da dor de cabeça se falasse: “você sempre dá essa desculpa e foge do sexo, por favor, procure se tratar, ou me diga o que eu significo para você, se me ama, se me deseja”. Confessar que procurou uma mulher disposta para o sexo é acusar a esposa de frígida.

Aquele que triangula trai duas vezes: a primeira, quando oculta o aborrecimento, dando impressão falsa, hipócrita, de estar feliz; a segunda, quando permite que o traído saiba, impactando-o com uma revelação que o desvaloriza profundamente.

Aquele que trabalha suas insatisfações, não foge das críticas, dos debates, renova a relação. Se tiver experiência com um terceiro, não exerce obrigatoriamente uma traição.

Temos ainda o que confidencia o interesse antes de agir (pede autorização para trair), e o que confessa em solenidade de contrição, para alcançar um perdão. Discutiremos esses em breve.

1 Comentário(s) desse artigo

1. terencio hill
30/01/2010

Acho que o problema é muito mais complexo. Aqui você corre o perigo de simplificar uma realidade que vai muito longe. abraços terencio

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