Sexo e mente limpa


23/11/2009

Em associação automática, o cérebro da cultura ocidental, originalmente pela influência judaico-cristã e hoje pelo moralismo norte-americano, costuma ligar o sexo à poluição mental. Trata-se de um lamentável desserviço prestado à nossa civilização, um sistema tendencioso que afasta as pessoas do erotismo sadio, seguro e de laços afetivos confiáveis.

Exemplos corriqueiros se reprisam em expressões dos meios de comunicação dos EUA e se infiltram em nossos valores latino-americanos, ao longo do tempo.

Em filme (Nadine) de Robert Benton, realizado em 1987, a protagonista (Kim Basinger) tenta conseguir dinheiro com fotos eróticas. A época da trama é de três décadas antes. Quando o fotógrafo é assassinado, o ex-marido dela (Jeff Bridges) imagina que o crime ocorreu devido a envolvimento sexual da vítima com as modelos - imediatamente a moça diz que ele tem a “mente suja”. A expressão coube na década de 50 e não sofreu reparos na de 80.

Observe que a sujeira principal não é o homicídio, como deveria ser apontado. Absurdamente, o possível caso íntimo é que teria um caráter mais criminoso.

Nos anos 90, durante vários episódios da série Law and Order, o ator Benjamin Bratt fez um detetive casado e com três filhas que entra em profunda crise moral toda vez que pensa em outra mulher que não a esposa (com extensão de culpa para as filhas).

Nesses primeiros anos do terceiro milênio, as referências sobre as confissões de políticos norte-americanos que se envolveram com prostitutas ou em lances homossexuais foram notórias. Quase todo ano, um senador, deputado ou equivalente renunciou a seu posto devido a alguma denúncia ligada à sexualidade. No ano passado, o governador de Nova York se demitiu por uma história com prostituta de luxo (aliás, uma brasileira).

Recentemente, foi muito divulgado o ocorrido com o apresentador de talkshow David Letterman: durante seus programas do mês passado, ele revelou envolvimento sexual com mulheres de sua equipe de trabalho. A confissão foi a alternativa para que ele não se submetesse a uma chantagem. Parece que a polícia irá cuidar do chantagista, mas o impacto moral do homem famoso e casado que trai a esposa e publicamente pede perdão a ela é o contexto que mais mobiliza os espectadores.

Imaginar que uma pessoa se dedica a provar infidelidade sexual de outra e ainda tenta cobrar uma quantia em dinheiro pela informação (ou pelo segredo) é algo verdadeiramente poluído. Pagar por essas chantagens ou revelar experiências íntimas por conta dessas pressões também só tem espaço em mentes “sujas” (dominadas pelo moralismo sexual).

As religiões cristãs ainda sustentam esses pilares da tradição moral. A maioria brasileira se influencia por essas convenções, tais como: o catolicismo insiste em não aprovar oficialmente o uso do preservativo; o evangelismo cultua alguns padrões como as vestes femininas pudicas e a virgindade pré-conjugal. Muitas dessas condutas são aparentes, seguem apenas na exterioridade as orientações antiquadas. A sexualidade que precisa se manter oculta é inconsequente e pode ser muito perversa.

Desejos e comportamentos conscientes, assumidos e sinceros são muito mais saudáveis e construtivos. Não enganam, não iludem ninguém e podem ser assumidos com muita liberdade e alto grau de responsabilidade.

A hipocrisia moralista é ironizada por muitos vídeos divertidos, na internet. Por exemplo, procure os cérebros que maliciam fatos e imagens do cotidiano em: Desenhos a mão livre - ao som de Marcus Miller.

Mas a gozação não basta. Precisamos caracterizar muito bem a sujeira mental: tem tudo a ver com crimes e perversões, nada com o desejo, a fantasia e o prazer sexual.

Faça seu comentário sobre esse artigo

Comentário

Outros artigos

E-value