Pudores indecentes


16/11/2009

Um pouco desanimado com o tamanho da repercussão descabida que o caso da acadêmica e seu vestido curto teve pela mídia, desestimulei-me a escrever sobre o assunto. Mas algumas pessoas me lembraram que esta coluna é um dos poucos espaços reservados para tratar serena e seriamente de sexualidade e sua respectiva repressão, de modo que eu não deveria evitar essa abordagem.

Não posso negar que realmente procuro trazer aqui, todo sábado, os mais diversos temas e comportamentos ligados à sexualidade em seu mais amplo sentido. Isso abrange o erotismo direto, sensual, dos detalhes objetivos do corpo, e o indireto, artístico, o senso que nos dá prazer estético, até o valor abstrato maior, o amor. Muitos aspectos são polêmicos, várias contradições surgem nas leituras e nos comentários.

Quanto mais debatemos esses assuntos, mais eles se fazem aproveitáveis. Este tópico da estudante da faculdade de Turismo da Uniban me pareceu tão absurdo e inadequado que estive fazendo vistas grossas a ele. No entanto, para os amigos e leitores que me incentivaram a mais esta reflexão, vamos lá.

Observamos garotas nas faculdades com vestuários os mais diversos. Umas parecem mulheres árabes ou freiras, fechadas e recatadas, outras usando microssaias menores do que o vestido do dito escândalo, algumas aparentando uma imagem de hiponga, chegando às de aparência virilizada ou visual clássico tipo tailleur ou terninho. Nada surpreende, incomoda ou aborrece. Às vezes vemos moças em trajes mínimos nos cursos de faculdades católicas, protestantes, onde talvez se esperasse algum controle religioso moralista; em outras oportunidades, lá estão garotas pudorosas em universidades públicas, onde nenhuma roupa seria criticável.

Por que valorizar essa roupa curta e mobilizar tanto interesse pelo fato? Que importância teria esse acontecimento que repercutiu em todos os cantos do mundo (América, Europa, China...) e veio a ser manchete em vários meios de comunicação do Primeiro Mundo?!

Desde a pressão moral e a hostilidade com que os colegas trataram a moça até a decisão da reitoria em expulsá-la com retroação imediata, só vimos demonstração equivocada de preconceitos. Parece ter sido um excesso de intimidação e humilhação que não chegaria a um abuso de poder tipo bullying porque não foi recorrente. Mas poderia se repetir.

É quase inacreditável como, em certas circunstâncias, ideias superadas, inconvenientes, que realimentam discriminação e intolerância, são revigoradas instantaneamente. E ainda são capazes de motivar reações inapropriadas de malevolência e sexismo.

Se um episódio desses surgisse em uma escola cujos valores morais são nitidamente rígidos (por exemplo, como em uma universidade mórmon de Utah, nos EUA), ninguém estranharia a vigilância e as reprimendas.

Mas, em uma faculdade particular brasileira, sem compromisso religioso, só se poderia cobrar do aluno que fosse dedicado às atividades, que tivesse presença física nas aulas, não se revelasse abusivo nos lembretes fraudulentos, agisse com decoro acadêmico e exemplo ético. Não importaria se, em plena Primavera com calor de Verão, vestisse minissaia, se a cueca estivesse à mostra abaixo da bermuda, se calçasse chinelos ou mesmo gostasse de ir descalço e com boné às classes.

A indecência essencial se reflete na conduta estudantil, no desempenho intelectual, na confiança das equipes de trabalho em grupo, nunca em referência aos trajes sumários ou estilos de roupas.

Nesses momentos, estabelece-se um estreitamento mental, como se cada um e a sociedade em geral guardassem reservas inconscientes de moralismo radical que emergem para fora das pessoas sem critério ou medida.

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