Liberação e melancolia


26/10/2009

Desde que a famigerada rebeldia da década de 60 projetava grandes transformações culturais, imaginou-se que, algumas décadas depois, as mulheres estariam comemorando festiva e alegremente o sucesso da própria autonomia e o rompimento da dependência dos homens.

Paradoxalmente, um levantamento divulgado há um mês nos EUA (versão on-line do New York Times) e reportado no Brasil pela edição recente (596) da revista Época, mostrou outro resultado. Trata-se de um longo estudo comandado por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, iniciado em 1972. Entrevistas anuais feitas com 1.500 pessoas mostram o declínio da satisfação subjetiva feminina.

A pesquisa faz uma comparação entre gêneros e faixas etárias. Antes dos 40 anos, as mulheres se dizem mais satisfeitas do que os homens. Depois, elas se reconhecem cada vez mais insatisfeitas com as próprias vidas, sejam casadas, solteiras, com ou sem filhos, bem ou mal empregadas, independentemente de cor e de classe econômica.

Na contramão do que se esperava, são necessários questionamentos sobre os motivos dessa discrepância. Muitos acreditam que se trata da sobrecarga em que a mulher se colocou, a dupla ou a tripla jornada. Outros observam o excesso múltiplo de funções: trabalhar de modo competente, em nível competitivo com o homem, exercer a maternidade, administrar a casa, manter o casamento, reciclar a sedução erótica e conservar-se bela, jovial e magra...

A pressão sobre a mulher verdadeiramente se acentua à medida que a idade avança. De certo modo, é o inverso para o homem: os ranços machistas prestigiam-no, ele é o grisalho exitoso, valorizado e charmoso. A sociedade falocentrada não está preparada ainda para o sucesso equivalente da mulher experiente. É claro que há veneráveis exceções, mas o contexto da maioria contempla os padrões masculinos tradicionais. Basta observar o sucesso da novela Viver a vida, produção da Rede Globo que está no ar no horário mais nobre da TV, explorando o tema.

O ator José Mayer faz o protagonista que ratifica esses valores convencionais: é maduro, tem riqueza, envolve-se com uma jovem, é admirado por outras mulheres (por personagens e telespectadoras...) e não importa muito se não tem um físico esteticamente privilegiado. Se a história fosse sobre uma figura feminina, a atriz teria que ser extremamente formosa, com cabelos bem tingidos, rosto atenuado de marcas.

Não é devida nem justa uma transformação parcial que funcione apenas para a mulher jovem. É um absurdo sem dimensão, pois, com o alargamento da vida média, o tempo de vida adulta da mulher depois da menopausa aumenta cada vez mais.

A tristeza da mulher também envolve outra subjetividade pouco observada na mídia, o caráter do espírito feminino. Entendo que isso menospreza a maior virtude da mulher: a sua capacidade amorosa. As revoluções culturais que repensam suas grandes forças virtuosas deveriam prestigiar os avanços femininos sem preconceitos. E jamais descuidar de seus préstimos anímicos, favorecendo o aprimoramento de sua alma, resgatando e estendendo o amor.

O número recente (2084) da revista Isto É trouxe uma matéria sobre a adolescência apontando o adiantamento da transição para a vida adulta. Hoje, o adolescente com 13 anos corresponde ao de 18, há duas gerações. Um dos dados da reportagem indica que 48% dos púberes atuais acham que os namoros devem começar aos 12-13 anos.

A iniciação do erotismo não seria precoce à medida que a puberdade também promovesse um amadurecimento amoroso. Uma garota, logo que completou 12 anos, beijou um menino pela primeira vez, e disse que se não gostasse dele, continuaria “bv” (boca virgem)...

Pelo feliz exemplo dessa menina, o sexo e o afeto não se desgarram. Vamos incentivar essa possibilidade e combater a triste discriminação do seu futuro

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