Amor e Sexo na Globo


14/09/2009

A TV Globo tem apresentado às sextas (virando para o sábado), um novo programa: Amor e Sexo. Logo que fui informado da novidade, procurei ficar atento, assistir aos episódios, especialmente para observar como seriam mostrados os aspectos tão diversos e polêmicos das duas principais áreas de relacionamento humano.

Trabalhando cotidianamente com as dificuldades afetivas e sexuais das pessoas, criei alta expectativa para o novo show, desejando que fosse esclarecedor para os telespectadores, especialmente quanto às questões do amor. Afinal, a Globo é o canal de maior influência no País.

O horário parece compatível com a audiência adulta, a apresentadora (Fernanda Lima) e a banda (Léo Jaime) são simpáticas. Não é muito alentador, porém, o caráter de “constelação global” que exige convidar as celebridades da própria emissora. Elas vêm falar de sexo e amor porque fazem parte do elenco da rede e não devido aos seus conhecimentos e experiências. Em todo caso, temos a grata presença de uma autoridade brasileira em pesquisa e clínica de sexualidade humana: Carmita Abdo, da USP.

Devemos reconhecer, no entanto, que o currículo acadêmico é decisivamente importante somente para o campo sexual. Ciência é atividade que exige dados concretos, levantamentos precisos. As reações corporais do sexo podem ser representadas em gráficos. O amor não tem uma real referência cognitiva, não se reduz a dados exatos. Ao contrário, é bem compreensível ao sensibilizar espiritualmente, no âmbito poético, onírico, imaginário.

No GEA (Grupo de Estudos sobre o Amor - veja abaixo o site), pessoas com nível mínimo de escolaridade já nos ofereceram belas lições de amor. As graduações acadêmicas e o renome midiático não qualificam nem contemplam a aptidão e a sabedoria amorosas.

Os tópicos de sexo são mais corriqueiros na mídia e a prática sexual envolve mais treinamento do que inspiração. O exercício do sexo é concreto, objetivo, muito mais fácil de aprender do que o amor. Este é abstrato, implicando muitos lances subjetivos de ordem romântica e anímica.

O panorama de instruções para o sexo é abundante. Folheando as ilustrações do Kama Sutra, a pessoa pode se sentir devidamente guiada para experiências sexuais diversificadas, pelo menos quanto às posições dos corpos em ação erótica. Há outros manuais, filmes, cursos, vídeos e fotos com textos e imagens sobre massagens, striptease, o pompoarismo e outros ensinamentos para treinar a excitação e o prazer sexual.

E a perspectiva do amor? Onde aprender, estudar, treinar, como praticar o nosso mais nobre sentimento? Há quem ensine ou simplesmente alguns privilegiados têm, pela sua natureza especial, esse brilho interno nas almas?

Esse novo programa de televisão, até agora - está na terceira semana, viajou no mar sexual. Não arriscou no oceano do amor. Debateram-se assuntos de gênero, orientação sexual, beijos, preliminares, traição com prostituta, tudo com um reflexo que pretende sugerir novidade, mas nada profundo ou original. Acompanhando o conteúdo atual da tevê, lembrou um pouco dois comerciais: o da cerveja, em que os homens são liberados para falar a verdade, e o da sandália, onde a avó sugere à neta que faça sexo descompromissado.

Arthur da Távola escreveu: “Tenho visto muito amor por aí. Amores mesmo: bravios, ... gigantescos, ... profundos, ... cheios de entrega, ....dádiva. Mas esbarram na dificuldade de se tornar bonitos. Apenas isso: ... belos, ... tratados com carinho, cuidado... Amores levados com arte e ternura de mãos jardineiras.”

Para não restringir o amor ao consumo televisivo, precisamos de avaliações racionais e dessa jardinagem artística e terna. Podemos amar mais e melhor admitindo que somos iniciantes no conhecimento e na prática amorosa, entrando decisivamente no seu exercício progressivo e crítico.

1 Comentário(s) desse artigo

1. Evair C.Deantoni
15/11/2009

Que delícia de crítica !!!! Este é o 3º texto que leio e estou entusiasmado com a simplicidade e direção que o autor emprega ao discorrer sobre um assunto tão mal tratado. Não poderíamos mesmo nem imaginar que a famigerada Rede Globo tivesse qualquer outra intensão com este programinha que não fosse e de revender estereótipos fixando cada vez mais a ignorância preconceituosa na cabeça do povo facilmente dominável e desunido. Falar de sexo qualquer chacrete fala mas, amor não é assunto palpável para galã nem gatinha de novela.

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