As (des)vantagens do orgasmo


24/08/2009

Para os padrões da cultura ocidental, o momento do êxtase sexual, o ápice do prazer vivido durante o tempo do orgasmo é uma missão cumprida, um gráfico completado.

Frequentemente usamos expressões que associam o clímax erótico a uma meta. Os verbos correntes, tanto para as pessoas que apresentam dificuldade clínica no sexo quanto para as que não se queixam, sugerem essa perspectiva. Assim, dizemos “atingir”, “alcançar” o orgasmo, para essas, e “não conseguir”, para aquelas.

Desse modo, compõe-se verdadeiramente um panorama de almejo, um objetivo colimado. Isto é uma provável decorrência do modelo multifásico criado por Masters e Johnson, nos anos 60, depois corroborado por Helen Kaplan, nas duas décadas seguintes.

O gráfico desses grandes pioneiros da sexualidade humana indica quatro fases: desejo, excitação (na mulher, lubrificação; no homem, tumescência), orgasmo e resolução. Se formos acompanhar a sequência rigorosa, teríamos uma resposta sexual completa e satisfatória somente quando chegássemos à resolução, uma espécie de desídia após a grande descarga.

O padrão da sexologia histórica é muito importante não só didaticamente, mas para o exercício da clínica. Ele pode diferenciar as síndromes que ocorrem nas fases distintas. Mas no contexto do aproveitamento libidinoso, pode atrapalhar.

Uma mulher viveu quase 20 anos com um homem que apresentava ejaculação precoce. Raramente ela teve a chance de experimentar orgasmo com ele (só alcoolizado demorava mais para ejacular). Quando estava com quase 50 anos, fase em que pensava mais em desistir da libido do que em reacendê-la, pois entrava na menopausa, ela conheceu outro parceiro. Que agradável surpresa: o companheiro atual gosta de controlar a ejaculação, de modo que agora ela tem orgasmos em abundância!

Em geral, o homem que não se aflige com a meta orgásmica, despreocupado em cumprir desempenho, pode participar da relação sexual de modo mais interessante, prorrogando a própria excitação e a da parceira. Quando isso acontece, o clímax tende a ser mais forte e demorado.

O sexo tântrico e neotrântico sugerem esticar a erotização ao máximo, com múltiplos intervalos, várias etapas de interrupção. Para o homem, às vezes se solicita até evitar a ejaculação, adiando o orgasmo o maior tempo que ele suportar, só vivenciando a resolução dias depois.

Nas experiências atuais dos adolescentes, o “ficar” é um erotismo parcial, um metamerização superior, como se apenas participasse o hemicorpo acima do umbigo. Garotos conseguem se excitar sem ereção, e garotas, sem lubrificação genital.

É possível vivenciar múltiplas experiências de excitação vigorosa e longa sem orgasmo. Também se pode fruir dele de modo acelerado, se assim for a vontade dos pares, não por dificuldade em retardá-lo.

Homens mais maduros podem aproveitar o período refratário maior e a menor tendência a ejacular precocemente. Com isso, prolongam a excitação, proporcionando e recebendo maior satisfação sexual em uma única sessão amorosa. Mulheres não dependem do amadurecimento. Elas podem retardar o orgasmo desde a juventude.

No casal heterossexual, as diferenças de gênero devem ser bem exploradas para incrementar o prazer. Uma expectativa que pode atrapalhar muito os parceiros é o empenho em gozar juntos. Isso não deve ser incluído no pacote de erotização, a não ser que os dois tenham muita facilidade e controle sexual.

É importante que cada um favoreça a erotização do parceiro e a própria, sem se preocupar em gozar. O orgasmo aconteceria porque houve uma redundância, um acúmulo da excitação não programado.

Em síntese, podemos sugerir: “encha de erotização o parceiro e permita que ele também excite você aos píncaros e que cada um goze, juntos ou não, na exaustão. E, mesmo exaustos, continuem abraçados e afetivos”...

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