Amor unilateral


01/08/2009

A relação amorosa é, como o nome indica, uma experiência para ser vivida a dois. Afinal, os membros de um casal estão a fim de alcançar uma lista de interesses, emoções, conveniências, ideais e satisfações. Cada par se envolve, em maior ou menor intensidade e profundidade, para realizar seus sonhos românticos, trocar sentimentos, atender expectativas, definir projetos e fruir dos prazeres eróticos. A conexão que se faz entre as duas pessoas, no entanto, pode ser pouco proporcional, mal equilibrada. Isso favorece o aparecimento de conflitos que podem perdurar - às vezes até prevalecer sobre as gratificações - durante todo o tempo do relacionamento.

Pensemos em cada indivíduo como se ele fosse um país com suas fronteiras e trâmites aduaneiros.

Quanto mais rigorosas as defesas de fiscalização e controle imigratório, menos visitantes, turismo enfraquecido e a chance de processar uma imigração será mínima. Assim também na pessoa: o corpo e a alma estarão fechados - poucos encontros fugazes ocorrerão, um casamento será improvável.

Por outro lado, escancarando as fronteiras e minimizando a alfândega, a pessoa acomodará mais hóspedes, relacionar-se-á com candidatos à permanência curta ou longa, inclusive para assentar um visto de imigrante. Espírito e carne estarão abertos - as transas serão viáveis, o casamento também.

Relacionamentos polarizados satisfazem unilateralmente. O encontro turístico, mais voltado para o erotismo carnal, tem o sexo como prioridade, atendendo expectativas masculinas. E o imigratório, aquele que implica uma relação estável, equivalente ao casamento, com formação de casal e talvez família, assume um colorido mais feminino.

As disposições das defesas de cada um permitirão trocas variáveis, de compromisso e permanência que dependerão das afinidades, interesses e inspirações, muitas vezes promovendo desacertos.

A mais difícil e complicada dinâmica ocorre quando existe alta desproporção de vínculos, caracterizando um amor unilateral. Vejam exemplos de alto risco para a pessoa que está na expectativa de ser correspondida. E concluam que ela deve sair desse opróbrio, o mais breve possível.

O casal já se encontra há quase seis meses. Chegando a uma festa, o rapaz apresenta a acompanhante aos amigos pelo nome, sem acrescentar o título “namorada”. Ela fica muito revoltada mas não diz nada, temendo que ele não mais a convide para sair...

O rapaz vive um pequeno romance com a namorada de um amigo. Ele gostaria que esse namoro terminasse, mas tenta não se meter entre eles, evita interagir através de triangulações. Afastando-se mais do amigo do que da moça, sente-se menos culpado. Consegue se encontrar com ela semanalmente. Há mais de um mês sem falar com o amigo, encontra-se casualmente com ele e recebe a notícia de que o namoro acabou... Ele vai logo falar com a moça, desesperado para saber a razão de ela não ter comentado sobre o fim do namoro. E com maior ansiedade ainda perguntar se ela não pretenderia namorar com ele! A resposta foi que ela já estava começando com outro...

Outro arranjo arriscado acontece com pessoas separadas. Elas podem cair numa armadilha ao começar um novo relacionamento. Como já experimentaram a trajetória de uma relação séria, do namoro ao matrimônio, de modo inconsciente e imediato podem se comprometer de novo, sem vivenciar um tempo de convivência e amadurecimento do vínculo. Ocorrem muitas decepções e equívocos quando os pares se casam sem namorar, principalmente para um deles.

E vejam aonde se chega: a paciente estava apaixonada pelo seu dentista. Muito ciumenta, mesmo sem ter nenhuma aproximação íntima com ele, detestava imaginá-lo em casa com a esposa. Quando ia às revisões odontológicas, colocava seus óculos de grau em frente a uma foto da concorrente, em ângulo que deformasse a imagem quando ele olhasse para a mulher...

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