Um texto, O Amor nos Tempos do Sexo, da escritora feminista e ativista política Heloneida Studart é muito divulgado na internet. A autora nasceu no Ceará e destacou-se como jornalista e deputada estadual no Rio de Janeiro, onde faleceu há dois anos.
Gostaria de apresentar os trechos que me parecem convenientes para refletir sobre os tópicos essenciais de erotismo e afetividade, seguindo nosso objetivo essencial de estudar e divulgar o amor.
Em síntese, ela comenta "o final feliz da saga amorosa do príncipe Charles, herdeiro do trono da Inglaterra e dessa senhora de meia-idade, Camila Parker, sua eterna namorada" , destacando os "trinta e quatro anos de amor" ao longo dos quais o casal se manteve, apesar de todas as dificuldades, pressões e preconceitos. Serve-se ainda da história real entre Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, comparando os acordos entre os pares: "nem se pode dizer que era um desses afetos eternizados pelas afinidades intelectuais e psicológicas" . Também recorre à ficção de Gabriel Garcia Márquez (O Amor nos Tempos do Cólera) que descreve um romance de toda uma vida entre os protagonistas Florentino e Firmina. Finaliza com uma confrontação aos valores estéticos: "... não importaram as rugas, as pelancas. O mundo inteiro, convertido aos mitos da beleza e da juventude, torceu para que ele amasse a formosa Diana. No entanto, o príncipe desengonçado só amou a sua bruxinha, com aquela cara amassada e cheia de marcas, com aquele corpo desgracioso... Camila Parker Bowler é uma vitória do amor sobre todos os estereótipos do nosso tempo..." .
A conclusão prevê: "certamente, à noite, quando mais uma vez se despir diante dele, o príncipe vai enxergar, não o corpo flácido de uma senhora, mas o corpo esbelto, juvenil, perfeito que possuem todas as mulheres, de qualquer idade, quando são amadas" .
Comecemos por aqui, diante dessa bela figuração poética sobre o amor que reforma a estampa da pessoa amada. Respeitando a criação artística da frase, entendo que ela implica um risco à compreensão adequada do amor à medida que somente o viabiliza pela condição esbelta e jovial da imagem. Ou seja, ela não seria amada se não escapasse da aparência envelhecida e flácida.
No caso do livro de Garcia Márquez, a história também é artisticamente extraordinária, mas sugere um envolvimento obsessivo e submisso que mais se assemelha a uma paixão tóxica, uma ligação de dependência neurótica, com certa limitação erótica, do que propriamente um vínculo amoroso edificante, prazeroso e criativo.
No exemplo francês, os pares tinham uma postura racional e intelectualizada que os defendia das ansiedades de posse, exclusividade e ciúme. Nesse contexto, penso que o elo amoroso não sofreu verdadeiramente pressões equivalentes às do casal britânico, o que diminuiria o caráter romântico que costuma solicitar apelos heroicos para se solidificar. Mas não se sabe se a sustentação se deu por um amor mais livre e aberto ou se faltou afeto...
Fechemos os comentários debatendo o título. Dizer que estamos nos tempos do sexo e que esse amor se sustentou excepcionalmente fora dessa maré é injusto com o erotismo. A atualidade não é rigorosamente uma era sexual. Ainda existem muitas restrições e críticas à libido. Se observamos uma banalização do sexo, notamos também que o moralismo aparece de modo apelativo em várias circunstâncias, bem como ainda temos muitas pendências sexistas intercalando ondas de feminismo descabidas e reações de machismo truculento e impróprio.
Amor e sexo não precisam estar em polos opostos, nem devem se excluir. O prazer carnal não pode indicar empobrecimento sentimental nem o êxtase afetivo suscitar um desvio estatístico.