O prazer de escrever semanalmente aos leitores do Correio, há mais de uma década, é revigorado pelas mensagens e sugestões que eles me enviam. Independentemente do credo religioso, da ideologia, de posições político-partidárias, recebo esse material com todo respeito e consideração. Às vezes, até aproveito melhor aquele que traz um conteúdo crítico, pois a partir daí posso repensar certas ideias e conceitos. Os elogios, é claro, são estimulantes e agradáveis, mas eles não motivam reflexões e mudanças.
Há um mês e meio, publiquei o primeiro ordinal do título de hoje e aquele foi um dos artigos que mais mobilizou reações e incitou polêmicas. Um dos meus contestadores fez um longo e elaborado comentário, um trecho bem escrito e fundamentado que me animou a replicar e estender o debate. Trocamos e-mails e eu quis levar as divergências para um encontro de discussões no GEA (Grupo de Estudos sobre o Amor).
Em princípio, o meu preclaro crítico se interessou pela reunião que foi agendada para o último dia 06. Mas, infelizmente, ele não confirmou a presença. As atividades do GEA ocorrem todas as segundas-feiras em salão gentilmente oferecido pela diretoria do Tênis Clube de Campinas. Já tivemos que improvisar algumas vezes, um palestrante fica impedido, um computador tem um tilt. Dessa vez, apesar da frustração, o grupo pode reler os textos do meu artigo e do contraponto do leitor, a partir dos quais fizemos um interessante debate, pois surgiram opiniões com tendências opostas e outras vertentes.
O desenrolar do encontro reforçou a independência ideológica dos participantes. O GEA é grupo aberto, apolítico, sem compromisso com ninguém, acolhe desde um professor com currículo acadêmico excepcional até uma pessoa com nível iniciante de alfabetização mas que pode nos apresentar profundas lições de amor. Por isso mesmo o nosso crachá indica: “aprendiz de amor”.
Aliás, eu tive a inclinação inicial de radicalizar quanto à nossa competência afetiva, entendendo que deveríamos escrever na identificação: “portador de deficiência amorosa”. Felizmente, a lucidez feminina e sentimental de Sueli Castro ponderou que o participante está em um aprendizado contínuo e só de vez em quando ele atua como deficiente de amor. Esse é o nosso foco: assumir nossa limitação amorosa e expandir as dimensões afetivas. Para isso, temos procurado estudar e debater os obstáculos e dificuldades que nos impedem de amar mais e melhor.
Na minha ótica, um dos mais importantes entraves à evolução amorosa é a nossa dependência do amor sagrado. Atenção: combater a influência do modelo amoroso divinal significa lutar contra essa representação simbólica e não necessariamente opor-se contra a existência de Deus. Evidentemente, é bem mais fácil não se basear no amor divino para quem é ateu. Mas qualquer crente pode ter a preparação adequada e a cautela de evitar esse paradigma do primor absoluto da afetividade. Sem entrar no mérito da existência de Deus, os que possuem fé religiosa e os que não crêem podem perfeitamente dedicar-se ao progresso do amor humano, assumido nos limites da imperfeição que se aprimora e não da perfeição inatingível.
Não posso dizer que o ateu faria isso melhor que o crente ou vice-versa, mas o resultado seria maravilhoso - a humanidade caminharia paulatinamente para a era amorosa, com ampla abrangência erótica e reforço ético. O homem desse tempo seria cada vez mais confiável, de caráter atrelado à verdade, buscando compartilhar afeto e prazer saudável, paz, justiça e alegria.
Inadvertida e curiosamente, haveria ainda um final feliz para os dois lados, se confirmada a existência de Deus após a morte: o crente ratificaria a fé e o descrente surpreender-se-ia, com as bênçãos que Ele lhes ofereceria. Sim, pois ambos amariam o suficiente para obter as graças divinas!