Fãs e ídolos


13/07/2009

Michael Jackson está morto. E enterrado! Porém, algum fã radical do astro diria, sem constrangimento: não, não morreu, ele continua vivo, é imortal! Para o admirador, o admirado equivale a um deus, eterno e inatingível pela morte.

Mantendo nosso empenho em refletir sobre o amor em todas as suas expressões e nuances, vamos aproveitar o luto dos menos fanáticos e debater essa complexa relação entre ídolo e fã.

São inimagináveis os lances de exagero e abusos que determinados idólatras exibem nas tentativas de se identificar com seus adorados. Desde tatuagem com imagens enormes, nomes por extenso em diferentes partes do corpo, ofertas inusitadas, horas acampadas sem conforto em lugares estratégicos até atitudes truculentas com os seguranças e contra a própria vida, tudo pode ocorrer para ratificar a adesão incondicional.

A cantora Mariah Carey apelida os seus fãs de lambs (carneiros), o que os leva a atuar com maior dedicação e docilidade, chegando por vezes à humildade afetada.

Pensando em adeptos individuais e nas adesões coletivas, observamos variações enormes. Na devoção de um artista, temos o que se mantém isolado, sem jamais ingressar nas agremiações e fã-clubes, cultuando a celebridade em seu quarto recheado de posters e souvenirs, e há os que só se sentem adequados e robustecidos quando se agrupam. Na veneração a equipes, times de futebol, a confirmação gregária é praticamente indispensável.

O sistema fã-ídolo vem sendo redimensionado pelo advento da internet. Os intercâmbios são agora apontados como “sem precedentes... outras modalidades de divulgação entram em cena, como as páginas, além das várias comunidades criadas no Orkut", avalia a socióloga Rosana C. Teixeira.

Escritor português, o dominicano José Augusto Mourão aponta que “o ciberespaço significa a morte dos objetos reais” ou que “a idolatria moderna está aí: na sobre-avaliação de imagens que substituem as coisas”, ou ainda que “o sujeito da vivência virtual é desprovido de corpo”. Na realidade questionada pelo ciberespaço, o ser humano perderia a sua estrutura e integridade ética, o virtual transformaria o frescor e a transparência de cada coisa numa simulação...

Mas, antes mesmo da internet, essa relação afetiva entre tietes e célebres já se mostrava realmente um desafio à compreensão racional. Há várias tentativas de explicá-la e nada satisfaz a demanda.

Uma abordagem de cunho psicológico indicaria que a fixação por um ídolo pode ser uma substituição da imagem de um integrante familiar. O jovem que não conseguiu estabelecer um vínculo parental suficiente procuraria em uma pessoa famosa suprir essa carência.

Uma visão de ordem mais social mostraria que o ídolo é um símbolo polissêmico, pois assume muitas significações. E também loquaz, polifônico, já que admite simultaneamente várias linguagens e interpretações. Ele cabe no viés anarquista, mágico, existencial e outros.

Idolatrar transfere atributos e poderes divinos a qualquer coisa que não seja Deus. O filósofo inglês F. Bacon, já no século 16, mostrava que a ideia de ídolo é ilusória, vale como preconceito, equívoco usual que sacrifica a veracidade do conhecimento científico e filosófico.

A idolatria é nociva e perversa, até mesmo psicótica, pois contempla o delírio da superação dos limites, especialmente do que configura a morte. Seres humanos somos limitados e mortais. O adorador esquece-se disso e a celebridade também...

Precisamos cuidar dos ídolos - só no âmbito musical perdemos precocemente, entre outros, Elvis Presley, Bob Marley, agora o moonwalker. Tão venerados, eles acabam muito mal assistidos!

Ídolos são homens, têm corpos que envelhecem e adoecem, que não suportam certas reformas. Para não serem surpreendidos no auge da fama e se cuidarem, eles têm que crer nisso.

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