Namoros e sonhos


13/06/2009

Para muita gente, os repiques da noitada de ontem ainda ecoam nas cabeças... Como tem acontecido em todo Dia dos Namorados, com promessas do mercado de que isso vai se incrementar a cada ano, as filas em restaurantes e motéis seguem batendo recordes. De qualquer forma, a ressaca do dia de hoje é uma ocasião imperdível para falarmos de namoro. Façamos uma reflexão leve e bem-humorada, menos crítica do que costuma ser o nosso habitual, sobre o estado atual das relações entre os namorados.

Um dos estereótipos politicamente corretos que mais se reprisam nessa oportunidade, para os casais cuja convivência é mais longa, é aquela famigerada frase: “casados: eternos namorados”. A expressão implica alguns valores culturais que se acomodam no inconsciente da coletividade e passam pouco percebidos, mas eles ainda são muito influentes. A rigor, a ideia essencial aí embutida é a de que a previsão do namoro eterno, na realidade, só se confirma para poucos casais. A maioria depara com o impacto de que o casamento dá fim ao namoro, que a graça e o charme dos relacionamentos menos comprometidos se desfazem com o dever solene do vínculo conjugal.

E mais: recordando a ironia que costuma acompanhar esse chavão, entende-se que há uma expectativa na sociedade em geral divisando um destino ruim para o casamento. E pressupondo que raros casais conseguirão namorar depois de algum tempo de casados.

Há aquela anedota do homem adulto que diz: “sou um cara sério, bem casado, não tenho namorada”...

Pares que prosseguem namorando sem conceder folga ao desgaste formam uma minoria que faz a exceção. O maior contingente de casados segue a regra: namora progressivamente pouco e mal à medida que mais convivem. Os eternos namorados estão habilitados sentimentalmente e eroticamente capazes de ratificar uma extraordinária conexão amorosa. Essa seria a aposta mais bem-sucedida em um sonho romântico reciclado, que não envelhece espiritualmente e se adapta às transformações corporais.

Para a maioria não privilegiada, em matéria de amor, a subjetividade das expectativas oníricas e a veracidade objetiva não se distinguem com nitidez. Anseios podem ser confundidos com frustrações, causa e efeito nem sempre estão compreendidos de modo sincronizado.

O universo virtual, tão acessado e disponível nos dias atuais, corrobora essa mescla. Muitas pessoas se apresentam com identidades irreais, fotos de amigos, currículos exemplares, renda admirável. Os internautas que usam dessas imposturas tentam se seduzir de modo convencional, falocentrado e machista. São românticos carunchosos... As mulheres manipulam o ideal masculino de beleza física, e os homens, o sonho feminino do príncipe abastado.

Durante quase 50 anos, desde uma pesquisa de 1960, pensava-se que os homens sonhavam com sexo mais do que as mulheres. Hoje, observa-se que os dois gêneros se equivalem.

Antonio Zadra, pesquisador da Universidade de Montreal, um dos maiores estudiosos dos fenômenos que ocorrem no sono e no sonho, reviu essas impressões. Ele mostrou que homens e mulheres têm sonhos eróticos com a mesma frequência (8% dos sonhos) mas uma diferença persiste: as fantasias. Elas fantasiam com celebridades e com os namorados (atuais ou antigos). Eles sonham com várias parceiras, em local público ou desconhecido.

E o material onírico dos privilegiados que seguem namorando contra o tempo? Essencialmente, eles não precisam de recursos diferenciais nos devaneios ou na realidade. Podem sonhar as mesmas coisas que a pesquisa mostrou, mas certamente possuem espíritos especiais, uma nobreza de caráter e uma potencialidade sentimental que os reforça diante dos conflitos e etapas difíceis, sempre renovando o vínculo amoroso e a libido.

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