Casal erotizado e casal visceral


16/05/2009

Os pares envolvidos em relações mais duradouras têm que lidar com a tendência de diminuir a erotização dos casais ao longo da convivência, procurando frequentemente os resgates da sexualidade.

No namoro e no período inicial em que o casal começa a conviver, cada par esmera-se na apresentação, capricha na roupa e na polidez, evitando relaxar em seus comportamentos.

Cada ocasião de se encontrar é valorizada, os dois tentam aproveitar ao máximo o jantar intimista iluminado a velas, ensaiam propostas eróticas, beijam-se e tocam-se em todos os momentos, prolongam a noite em um motel sofisticado. De maneira progressiva, no entanto, os pares tendem a se acomodar. Mesmo antes de casar, ainda namorando, começam a descuidar da aparência, empobrecem os programas. Depois que passam a morar juntos, permanecem cada vez mais caseiros, tendendo aos pijamas, chinelos, ao sofá em frente à TV.

A rotina das funções profissionais e da convivência diária vai repercutindo nas demandas da vida em comum, despersonalizando cada identidade original. Com o tempo, os pares conviventes tendem a esperar iniciativas de amigos para sair de casa. Se ninguém os convida, não saem. A mudança é estratosférica! Todo o charme e o encanto de uma noite, tão fáceis de ser vividos e mantidos no tempo do namoro, agora dependem dos outros.

Paulatinamente, os pares vão se distanciando dos enlevos eróticos, das vivências românticas, incluindo atitudes isoladas, individuais ou agregadas a terceiros: filhos, outros familiares, vizinhos, parceiros sociais. De bons amantes do início da história comum tendem a se comportar como parentes, irmãos, companheiros de república.

A moradia compartilhada implica mais interação, nem sempre desejável. Quando abonados, cada par pode usufruir de sua suíte, mas a grande maioria das pessoas divide um banheiro. Usar o mesmo toalete implica a chance de algum descuido, esquecer de dar a descarga, não fechar a porta, clamar por papel higiênico que foi insuficiente...

Dormir juntos nem sempre significa oportunidade sexual e pode implicar alguns lances desagradáveis, tais como ouvir um ronco, assustar com os gritos do parceiro que acorda em meio a um pesadelo.

Conciliar o sono pode ser automático para aquele que dorme ao encostar a cabeça no travesseiro, mas pode ser árdua tarefa para o insone.

A gravidez, o aleitamento, a presença de filhos e suas necessidades concorrerão inevitavelmente com as expectativas eróticas dos pais. Muitas mulheres entram numa espécie de período refratário ao sexo depois da primeira gestação.

Sempre há uma tendência à acomodação. Há casais que se entediam menos, mas o problema é bem comum.

Nas crises evolutivas e de saúde, os casais também são postos à prova. Transformar o criado-mudo em prateleira de medicamentos, fazer da cama um leito hospitalar é missão quase impossível para alguns.

Há os que têm facilidade em equilibrar as duas intimidades: amam-se visceralmente sem prejudicar a libido. Mas esses são poucos, uma minoria privilegiada. A maioria deve combater essa propensão, evitando que o destino visceral predomine e o amor erótico desapareça do casal.

É essencial que os pares continuem se produzindo para si próprios e não apenas quando recebem visitas. A baixela que ganharam no casamento é para ser usada em uma refeição para os dois, não há que esperar por hóspedes especiais.

À medida que cada um reserve-se na intimidade visceral e exponha-se na erótica, a relação é revigorada na mesa, na sala, como enlevo romântico, e reverte na cama, em prazer sexual.

Cada um tem que se revalorizar como amante e namorado. Não há como favorecer o amor sem namorar.

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