Aproveitando um trabalho de Cláudio M. Martins, vamos observar as transformações que ocorreram nos últimos cem anos, referentes à sexualidade. As implicações comportamentais e emocionais das novas amplitudes de liberdade foram revolucionárias.
Na virada do século 20, a sexualidade era tabu. As defesas das pessoas eram quase impenetráveis. Havia um ritual para que o homem se aproximasse da amada e o cortejo incluía uma autorização do pai da mulher.
Noivado autorizado, motivo para satisfação, eis que a moça poderia se prejudicar. Se houvesse o rompimento, dificilmente ela conseguiria um segundo pretendente. Para fechar esse círculo moral - e para grande surpresa dos jovens de hoje - a moça deveria chegar virgem ao casamento. Se não, correria o risco de ser devolvida aos pais...
No mundo machista e patriarcal da primeira década do século passado, anos 10, os papéis conjugais estavam previamente definidos: o homem era o provedor econômico e a mulher cuidava da prole e da casa.
Nos anos 20, surgiram novidades nos rituais sociais: os namoros. Os namorados passeavam de mãos dadas, acontecia o beijo fortuito e uma expansão para lugares públicos, mas a jovem deveria estar acompanhada de alguém para “segurar a vela”.
Avançando para a década de 30, iniciava-se a fase dos manuais de aconselhamento matrimonial e uma licença para uma vida sexual da mulher. Os conselhos sugeriam sexo harmonioso e prazeroso, mas com “serenidade”! A repressão se atenuava, mas ainda predominava. Em todo caso, já se reconhecia o sexo como um dos pilares do bom relacionamento conjugal.
Imaginem atualmente um sexo “sereno”: isso pode matar qualquer iniciativa libidinosa...
Nos anos 40, as mulheres tinham maior autonomia de escolhas. Havia uma gradativa redução no controle dos namoros desde que o candidato fosse “um moço de futuro”. A discussão da sexualidade se ampliava, o diálogo entre mães e filhas foi incrementado. Mesmo assim, a sexualidade prosseguia reprimida e cheia de medos, pois as descendentes eram aconselhadas a não se “perder”, isto é, manter a virgindade até o casamento.
Na década de 50, ampliou-se a discussão da vida sexual. Os pares melhor identificavam as frustrações e gratificações vinculadas ao que sempre existiu mas estava mascarado. A sexualidade humana passava a ser tema obrigatório na vida de homens e mulheres bem como um meio de aprimorar o bem-estar na relação deles.
A revolução sexual dos anos 60, com a pílula anticoncepcional, proporcionou o exercício da sexualidade sem o temor da gravidez indesejada. O casamento “obrigatório” foi questionado. A mulher exerceu uma possibilidade até então desconhecida: transar por prazer sexual. Os dogmas religiosos do casamento atrelado a uma sentença de vida (até que a morte os separe) foram repensados. Os índices de separação aumentaram desde então: em 1900, de cada 86 casamentos, um terminava em separação; hoje, ocorre um divórcio a cada seis uniões.
Já nos anos 70, com bailes alternando música lenta e rock pesado, iniciaram-se os “amassos”, os namoros nos automóveis e a inovação avassaladora dos motéis. Os casais formais e informais se encontravam com segurança e sofisticavam a sua intimidade.
Quando a liberalidade preocupava a sociedade, eis que a década de 80 assustou a todos com a Aids. Isso mobilizou mais responsabilidade nas relações, bem como devolveu aos jovens o medo de iniciar suas relações sexuais.
Nos anos 90, o namoro com sexo incorporou-se à sociedade. Os jovens, além dos motéis, namoravam nas casas dos pais. Com a chegada do Viagra e similares, os maduros e senis reintegraram-se à sexualidade.
Betty Milan sugere que o engodo dessa história é a fantasia de que a liberação sexual foi suficiente - ela diz que falta uma “liberdade subjetiva”.
Sim, resta demandar uma revolução erótica maior, que envolva o mundo abstrato do amor.
Fertilizemos as mães capazes desse parto amoroso!