Maratona e abstinência


18/04/2009

Condutas radicais já se incorporam no cotidiano da vida contemporânea. Algumas não passam de um relâmpago de modismo, outras se sustentam por um tempo mais longo, e também há aquelas que revolucionam a sua época.

A sexualidade vem sofrendo verdadeiros terremotos comportamentais, desde a metade do século passado. Em 1948, o polêmico Relatório Kinsey foi o estopim do que se delineou depois como a Revolução Sexual dos anos 60.

Confirmando as ondas revolucionárias, vimos nas últimas décadas vários movimentos transformarem profundamente os padrões sexuais e afetivos.

O Gay Power teve força extraordinária, foi capaz de incluir definitivamente os homossexuais na sociedade e arrasar com estigmas que consideravam a homossexualidade como doença. O feminismo revitalizou as mulheres de modo irreversível em seus direitos e emancipação. Fetiches e determinadas preferências deixaram as estatísticas da perversão, das taras, e englobaram-se em escolhas alternativas, descontando-se os excessos e absurdos. O envolvimento sentimental tem exaltações menos românticas, amor e sexo podem ou não se concentrar em um só indivíduo, é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo.

Do ano passado para cá, temos observado duas tendências opostas de modelo sexual com traços radicais.

Num polo, há casais que investem exponencialmente no sexo, acreditando que a relação se resolve mesmo na cama. Em outro, os pares recorrem à ausência de desejo sexual.

O primeiro modelo vem das experiências relatadas em dois livros: “365 nights - A memoir of intimacy” (365 noites: memórias da intimidade) de Charla Muller, e “Just Do It” (Simplesmente faça isso), de Douglas Brown.

A esposa Charla conta sobre o presente especial que decidiu dar ao marido no seu aniversário de 40 anos: um ano de relações sexuais, todos os dias, sete vezes por semana! O texto parece um diário narrando como estiveram disciplinados para cumprir a meta, inclusive acompanhados por um pastor religioso. A conclusão foi a de que efetivamente o incremento dos contatos físicos propiciou mais entrosamento espiritual e companheirismo.

Mais picante que o livro de Charla, o de Douglas mostra mais abertamente a descrição de um prazo menor de sexo diário: foram 101 dias sem parar com a esposa com a qual ele é casado há 14 anos e tem duas filhas pequenas. A ideia da maratona foi dela, Annie, depois que o marido contou sobre um clube em que homens ficavam 100 dias em jejum erótico. Ela propôs ficarem 101 em abundância. Nesse tempo, viveram aventuras em motéis, porões, locais inusitados e, às vezes, no ambiente prosaico do quarto deles mesmo... Acessórios, brinquedos e remédios foram incluídos no pacote. Para esse casal, também, o sexo foi reconhecido como algo além do físico, induzindo maior proximidade anímica.

Essas propostas ecoam: Paul Wirth, ministro religioso de uma cidade ao Sul dos EUA, Ybor City, tem recomendado aos seus prosélitos casados que, para melhorar seus matrimônios, façam sexo 30 dias seguidos...

Na outra ordem de condutas, temos casais sem sexo (alguns inclusive sem desejo). O terapeuta sexual Oswaldo M. Rodrigues Jr. comenta: “casais assexuados viviam em duas condições, há uma década: com respaldo religioso ou isolados em culpa. Atualmente, utilizando a internet, formam comunidades, dando apoio uns aos outros. Assim, iniciamos uma subcultura assexuada como meio de conviver num mundo com crises contínuas”.

O leitor observa que, tanto na maratona quanto na abstinência, a liberdade de escolha amorosa e a inspiração mais espontânea contam pouco. Penso que os pares mais autênticos e diligentes podem aproveitar as sugestões e reciclar suas relações, mas não precisam de disciplina extremista, acompanhamento religioso nem renúncias definitivas.

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