Jejum amoroso


11/04/2009

Os seres humanos deveríamos ter uma preparação especial, um sistema preventivo corpóreo e uma lavagem cerebral reversível que nos permitisse viver como um verdadeiro faquir de amor.

O tempo segue sua linha inexorável e nós observamos e compartilhamos essa miséria afetiva sem conseguir uma mudança efetiva e revolucionária. Não temos quebrado essa trajetória com algo que nos permitisse inverter a sequência, para que começássemos a reconhecer o déficit de amor e investíssemos no seu ressarcimento.

Além da miséria geral de afeto, temos que enfrentar outras privações e faltas crônicas, circunstâncias que se prolongam indefinidamente e mesmo assim são chamadas de “crises”.

A atual crise econômica (ou financeira?) - parece que nem os economistas a definem consensualmente - se mostra persistente e os responsáveis pela recuperação global ainda esboçam os meios de superá-la. O dinheiro segue escasso, o emprego é inseguro, o investimento se inibe, a poupança pode desaparecer...

Qualquer período crítico é muito piorado pela penúria amorosa universal. Com menos afeição, as diligências pelos problemas dos outros, da vizinhança, da comunidade, se reduzem drasticamente. Cada um só tem olhos para o próprio umbigo; no máximo, para um filho, um companheiro, um parente doente.

As pessoas que melhor amam não se arvoram de pretensão, de tirania autoritária, não se envolvem em negociatas nem corrupção. Estão dedicadas a favorecer a todos, não selecionam ninguém, democratizam suas atitudes, nunca descuidam dos amados (e todos são amados!).

Infelizmente, os que mais e melhor amam representam uma minoria. E, dentro desse grupo menor, há um grande predomínio de mulheres. Nem sempre, porém, as que ocupam cargos de maior importância política estão incluídas nessa minoria capacitada para o amor.

Em plena data cristã de Páscoa, podemos imaginar que nossa carência amorosa irá se resolver um dia, no futuro, depois da morte. Há uma previsão confortável que sugere a ressurreição de corpos, o clima decisivo do que se chama de “Juízo Final”, a sentença que determinará o destino dos imortais: o inferno da ausência ou o céu da presença do amor de Deus.

E enquanto isso? Aqui, nessa Terra? Caro leitor, pense nisso conforme esteja ligado ou não a uma crença.

Se você acredita nessa profecia, sendo um bom crente, sabe que precisa ter um comportamento amoroso (amar a Deus e ao próximo) para ter boas chances na hora do Grande Julgamento.

Então, mãos à obra, repense sua conduta com autocrítica exigente e empenhe-se em conhecer e praticar o amor cada vez mais e melhor. Como irá manter a expectativa de se deliciar com o amor divino quando estiver morto, deverá evoluir e aprimorar-se no plano do amor humano enquanto vivo.

Se você não tiver fé, vivendo como descrente, sabe mais ainda da importância de aprender sobre o amor e exercê-lo o quanto antes, pois aqui e agora é a sua única oportunidade!

Como não será aguardado o momento de fruir o amor divino, você intercambiará exclusivamente amor nos limites humanos. Este sentimento deve ser ampliado e esmerado com mais cuidado e dedicação, pois só existe esse modelo disponível para você e apenas durante o tempo em que estiver vivo, pois nada ocorrerá depois de morto.

A aleluia que interromperá a nossa dieta afetiva e erótica exige que assumamos a responsabilidade crítica de transformar nossas relações em trocas amorosas profundas, prazerosas e persistentes.

Mais uma Quaresma religiosa dos cristãos termina neste fim de semana, mas a ablação amorosa de todos os que habitamos esse mundo não tem prazo para acabar - depende de nós.

1 Comentário(s) desse artigo

1. João José Martins Tavares
26/04/2009

Convenço-me, a cada dia que passa, ser amor aquilo que se entende por fé ou esperança. Ou, pelo menos, trocar-lhes os espaços.

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