O tempo é inexorável, irreversível. Sabemos disso, não temos como negar essa sequência implacável, bem como reconhecemos as marcas terríveis que isso nos causa.
A dificuldade toda é que, no limiar desse panorama da temporalidade, cada um de nós terá que enfrentar a morte.
Morrer é referência obrigatória, incômoda, indesejável, até mesmo impertinente. Mas é necessária, indispensável à vida. Em um dos seus mais irônicos livros, As intermitências da morte, José Saramago provoca-nos com a ideia de que ela para de exercer sua função por certo tempo e promove um verdadeiro caos para os circunstantes. O autor ratifica a nossa necessidade do término - sem a morte, de certo modo, nós não sobrevivemos.
Temos que encarar esse fim, o que nos solicita a pensar no começo e no meio. Afinal, nascemos, crescemos, aprendemos, evoluímos, reproduzimos, envelhecemos. Até então, vivemos, experimentamos a vida. Sempre há o que aprender, algo deve ser amadurecido. Talvez falte admitir e administrar, de modo maduro e não desesperado, que a vida se resolve através da morte.
Viver e morrer são os mais óbvios dos valores humanos e históricos, mas não convivemos bem com isso, pois, no fundo, a morte é entendida como uma fraqueza (a maior delas).
Sem entrar na polêmica religiosa ou ideológica que defende as reencarnações, as almas imortais e equivalentes, e permanecendo bem atentos ao plano da vida humana que termina na morte, é essencial providenciar uma melhoria desse nosso período vital e compreender as virtudes da morte.
Reclamamos da brevidade da vida, algo que nos frustra muito. Portanto, devemos fazer todo o empenho possível para melhorar a quantidade e a qualidade desse tempo vital.
O discurso e a retórica insistem em apontar para a importância de valorizar o afeto e a ética. Precisamos nos amar e respeitar mais, no entanto a prática não acompanha a indicação teórica.
O ser humano dedicado ao amor, empenhado em conhecer, estudar, praticar e intercambiar o nosso mais nobre sentimento, tenderia a promover a paz, a harmonia generalizada e chegar à morte de forma mais elaborada e tranqüila. Ou seja, “bem amado”, ele morreria “forte”, robustecido pelo afeto.
Não temos conseguido isso, mesmo com recomendações de alcance mundial como as fornecidas pela ONU.
Findando o século XX, a Assembléia Geral das Nações Unidas declarou o presente decênio (2001-2010) - que já se extingue - como Década Internacional da Cultura de Paz e Não-Violência. Um manifesto foi esboçado por um grupo de laureados com o prêmio Nobel da Paz, propondo uma ética para o mundo de hoje.
O chamado Manifesto 2000 se compõe de seis pontos:
1) Respeitar a vida
2) Rejeitar a violência
3) Ser generoso
4) Ouvir para compreender
5) Preservar o Planeta
6) Redescobrir a solidariedade
Estreando o III milênio, a proposta da maior instituição mundial de diplomacia internacional apontou para uma perspectiva saudável, afetuosa e construtiva. Faltou realçar o atraso... E usar o vocábulo “amor”!
Precisamos insistir estoicamente nesse sentido, ainda que muitas crises e conflitos nos desanimem. Logo em 2001, já tivemos a monstruosidade das Torres Gêmeas. Outros focos de graves problemas, verdadeiras provas de anti-amor, espocam diariamente pelo mundo.
Confusos diante das nossas próprias contradições, assistimos a episódios tão dramáticos quão absurdos como os que ocorrem no âmbito nacional. Casos recentes em que o amor foi entendido como fundo passional de crimes são insuportáveis!