Castração e castidade


28/03/2009

Os artigos da semana passada (Amor excomungado) e do último dia 28 (Homem bom de cama) foram dos que mais polêmicas e dúvidas criaram ao longo dos nove anos em que escrevo esta coluna.

Hoje, gostaria de esclarecer alguns trechos e palavras que geram interpretações insólitas ou sequência de malentendidos, no plano da sexualidade masculina.

Em anatomia zoológica, o órgão copulador masculino de um animal invertebrado é reconhecido como pênis. Nos vertebrados superiores (onde estamos incluídos, como mamíferos primatas), também. É órgão masculino com função genital e de excreção urinária, constituído sinteticamente por dois corpos cavernosos e um tubo central, por onde passa a uretra, tendo a glande na sua extremidade, onde termina em meato (orifício).

Exercendo suas funções sem maior complexidade, o pênis eliminará a urina quando houver necessidade de esvaziar a bexiga e reagirá com a intumescência (encher-se de sangue) diante do estímulo sexual. A rigor, à hora do encontro erótico, ele estará “cheio” e não “duro”, não precisará confirmar performance de macho viril nem demonstrar fatores que avaliem e avalizem sua “potência” sexual. Aproveitará a ereção para o prazer e eventualmente para a reprodução.

Por outro lado, à medida que começa a influência da cultura falocentrada, tudo se torna mais complexo e difícil. O falo é uma ultrapassada e desnecessária complicação a perturbar os homens, as mulheres e a sociedade em geral. O falo é o pênis sempre ereto, representado em geral com dimensões exageradas, indicando força, virilidade e fertilidade.

Mesmo antes de haver convicção científica sobre a propriedade reprodutora masculina (a penetração do espermatozóide no óvulo foi demonstrada somente no século 19), há milênios o falo tem sido associado à fertilidade. Conhecida na internet, uma figura incrustada em parede mostra uma deidade (Min) com um volumoso falo que faz parte da mitologia egípcia, cujo auge cultural é de quase dois mil anos antes de Cristo. Ao longo da História, muitas festividades e comemorações contemplaram o falo, atualizando os estigmas do órgão potente, do machismo e do patriarcalismo.

Na atualidade, já existem celebrações menos reverentes e mais divertidas. Todo ano, no Japão, a cidade de Komaki recicla uma tradição. Nesta época (chegada da Primavera no Hemisfério Norte), é comemorado o festival Hounen Matsuri, que significa aproximadamente Feriado da Boa Colheita. Umas das principais atrações são os famosos souvenirs: chaveiros, enfeites, doces e vários itens em formato de falo, alguns enormes e bem caricatos.

Castrar no sentido psicológico (não a castração cirúrgica, química, mecânica ou outra que infertilize o macho) é decorrência da repressão moralista embutida na cultura falocentrada. No filme clássico de 1951: Uma Aventura na África (African Queen), o diretor John Huston criou uma cena que bem exemplifica a castração psicológica: diante da mulher desejada muito puritana, o protagonista mostra a fornalha do barco ardendo e, revoltado, bate a porta com truculência. Castrar biologicamente os animais domésticos pretende deixá-los mais mansos, evitando alguma reação ferina. No homem, parece que a castração psicológica pode levá-lo a uma ferocidade até perversa...

Aqueles que bem decidem por uma vida casta podem conciliar o calor do seu erotismo com as comportas de suas defesas. Mas os que não conhecem e negam sentir o próprio desejo, na prática, estarão mais para castrados do que castos.

A psicanálise de Freud indicou a “angústia de castração”, o conflituoso temor à perda do falo, muito mais catastrófica e dolorosa do que a perda da fertilidade. A psicanálise lacaniana ressaltou que o narcisismo implicado no falo amplia a angústia masculina de forma descomunal.

Se alguém chamar o casto de brocha, ele não se perturbará, dará de ombros. Se xingarem o castrado psicológico, ele terá que reencontrar a parceira da brochada para provar a potência...

5 Comentário(s) desse artigo

1. João Tavares
11/04/2009

O falo fa-lo-á se a vulva volver e envolvê-lo. O resto sempre será engodo. Julgamentos e normas só depois de muita conversa e de esclarecimento individual com base no materialismo dialético.

2. alexandre
12/05/2009

Caro Dr. estou há muito tempo procurando uma solução definitiva para minhas ereções e pensamentos descontrolados, acredito que a castração de meus testiculos seriam a solução, pois de qualquer forma não tenho prazer no sexo hetero e não desejo ter filhos, tenho 34 anos e essa é uma decisão pensada. Se for possivel me responder agradeceria.

3. tito
28/05/2009

a castraçao seria a soluçao ser catrado nao e o fim do mundo tambem concordo e tenho o mesmo problema e vou ser castrado em breve ja ta tudo emcaminhado

4. tito 29/5/2009
28/05/2009

a castraçao seria a soluçao ser catrado nao e o fim do mundo tambem concordo e tenho o mesmo problema e vou ser castrado em breve ja ta tudo emcaminhado

5. Eu
05/08/2009

Quero isso. Claro que é complicado quem possa fazer... Até ...

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