Reciclando a temporada carnavalesca, mesmo com tantas características liberais da sexualidade ecoando em todos os cantos, ainda se observa um clima de imoralidade convencional.
Muitas mudanças culturais decorreram da chamada revolução sexual dos anos 60/70, bem como das investidas feministas e questionamentos sobre o machismo. Poder-se-ia imaginar que o sexo, em pleno século 21, estaria mais óbvio e integrado à vida diária, não mais necessitando de escoamentos eventuais como o do Carnaval.
No entanto, talvez pela vigorosa tradição que anexa esses dias à liberalidade carnal, as defesas religiosas e os ranços moralistas se reforçam. Certos adeptos de seitas mais radicais evitam o contato direto com a onda, escondendo-se em retiros bem afastados, onde não se ouve um mínimo som de batuque...
Para a maioria que não se afasta do barulho, realmente há uma tolerância moral. Como ocorre nas praias de veraneio, onde trajes sumários são regras, nos bailes e desfiles momescos os costumes favorecem a exposição sensual.
Bebidas alcoólicas e drogas consumidas em excesso reforçam o contexto permissivo, crescendo a histeria coletiva e acomodando críticas, abusos e exageros.
A redução da censura sexual não deveria ser associada à permissividade para outros comportamentos. Dirigir depois de se embriagar, tomar estimulantes proibidos, invadir locais vigiados e atos de vandalismo são condutas que absolutamente nada têm a ver com a abertura moral da sexualidade. Atitudes perversas, expor circunstantes a risco, comportamentos levianos, roubos e assassinatos são equivocadamente ligados à paixão sensual, à libido. Isso é absurdo! O desejo sexual, ao contrário, é fonte de vida, saúde e benignidade. Somente se aproxima do crime quando implica a violência da pedofilia ou do estupro.
Naturalmente libidinosos, sexualmente ativos na maior parte da vida, genitalmente reativos desde a puberdade, na fase adolescente, por toda a maioridade, na maturidade e na senilidade cada vez mais avançada, os seres humanos vivemos inspirados por toda essa energia, toureando as nossas ansiedades moralistas.
O Carnaval ressurge anualmente como um cio, aquecendo as oposições e realimentando essa dialética, mas o clima festivo toma conta da maioria, desfavorecendo uma reflexão mais profunda e criativa sobre a sexualidade humana.
As intermitências morais acompanham a evolução humana, são partes integrantes da História, como qualquer outro fato dinâmico e influente. A Igreja Católica fez seu grande movimento repressivo aos costumes a partir do século 12, aproximadamente, mas os motivos da Inquisição pareceram mais de ordem política do que predominantemente moral.
É impróprio categorizar as reações sociais e individuais como exclusivamente fundamentadas em resgates morais. Quando aplicadas, as punições raramente seguem os rigores proporcionais aos delitos ou heresias. Tudo vai depender dos interesses a serviço do poder, das autoridades instituídas, das eminências pardas, dos conchavos, do lobby mais recente nos contextos e outras razões discutíveis.
As demandas do poder vigente costumam superar as divergências morais, como vem ocorrendo ao longo dos tempos.
O nosso Carnaval implica interesses turísticos e financeiros essenciais para a sobrevivência cultural, a memória folclórica e a evolução econômica dos cariocas e do Brasil. Essa conjuntura tem que resistir às dificuldades, criando aberturas e negociando com qualquer bloco de pressão moralista.
No entanto, para uma abrangência mais ampla, um exemplo que se globalize não apenas como organização festiva, que devaste horizontes mais novos e livres, é preciso combater agora e sempre os estragos que a repressão moral causou na nossa sexualidade.
Sexo não é crime, não é pecado e não necessita do Carnaval.