Pela enorme tradição européia e norteamericana, imagina-se que a biografia de São Valentim tenha uma consistência precisa e definida. Não, essa história tem fontes pouco confiáveis.
Hoje, namorados e amigos de boa parte do mundo trocarão presentes, recados, no estilo tradicional que, além de comemorar o amor entre casais, também contempla a amizade e os laços afetivos familiares.
O nosso Dia dos Namorados, o 12 de junho (véspera do dia de Santo Antonio, o casamenteiro), circunscreve-se ao amor erótico, demandando o encontro sexual. Nessa data, a espera na fila do motel chega a 3 horas. Já houve empresário do ramo que distribuiu taças de vinho e aperitivos para os casais suportarem a chatice dos carros alinhados...
As celebrações que hoje desabrocham em vários países europeus e da América abrangem várias dimensões do amor: o valor da amizade é tão comemorado quanto o afeto dos casais.
As origens do dia de São Valentim são mais antigas do que o cristianismo. As raízes remontam à Roma Antiga e à Lupercália, festa pagã em homenagem a Juno, deusa associada à fertilidade. Consistia numa loteria: o rapaz tirava de uma caixa o nome da moça que viria a acompanhá-lo durante o mês festivo iniciado aos 15 de fevereiro, cinco semanas antes da Primavera.
No século 5 d.C., o papa Gelásio I acolheu as lendas sobre São Valentim e instituiu sua celebração em 14 de fevereiro, apropriando para a Igreja a tradição das lupercais, que foram extintas.
O decreto papal admitia a carência de dados verossímeis, indicando que São Valentim era um daqueles “cujos nomes são venerados pelos homens, mas cujos atos só Deus conhece”... A Igreja o apresentava como mártir que recusou a conversão para outra crença, um santo apartado da paixão e associado ao “amor cristão”.
O Dia de São Valentim foi celebrado até 1969, quando o Vaticano decidiu interromper as festividades dos santos cujas origens não são claras. Já havia relatos de pelo menos dois santos martirizados com o mesmo nome, diretamente relacionados ao 14 de Fevereiro. Um terceiro teria vivido na África.
Nas mais antigas listas de mártires, dos primeiros séculos da era cristã, existiam pelo menos três santos com o nome de Valentim, todos lembrados nesta data. Ao longo do tempo, eles foram se unificando na memória popular, dando lugar a um único personagem, cuja história e tradição se expandem.
Temos duas versões principais.
A primeira: o imperador romano Claudio II proibiu os casamentos porque solteiros sem laços familiares eram melhores soldados. Um bispo, Valentim, desafiou as ordens e continuou a casá-los em segredo. Foi preso e executado em 14 de fevereiro de 270 d.C.
A segunda: um padre católico foi preso porque não quis se converter à religião de Claudio II. Na prisão, apaixonou-se pela filha do carcereiro, a quem teria deixado um bilhete com a assinatura: "Do teu Valentim".
Esta seria a origem de valentine, vocábulo inglês para “namorado”, que ganhou enorme significação no idioma globalizado da atualidade. O poeta britânico do século XIV, John Gower, teria imortalizado a palavra na arte de seus versos.
O 14 de Fevereiro se manteve por corresponder ao que outros poetas medievais da Europa enalteceram: o florescimento do amor, quando os pássaros começam a formar casais no hemisfério Norte.
As contribuições lendárias e as reais se mesclaram, a receita ainda foi temperada com novos mitos e fatos, de modo que o amor celebrado no dia de hoje é exemplarmente caracterizado: misto de magia e realidade!
Porém, o momento é crítico e exige uma reflexão profunda sobre a nossa limitação amorosa — continuamos amando pouco e mal! Se São Valentim atendesse preces, estaria devendo...