Os portugueses referem-se aos “prazeres festivos” como os que são deliciados em encontros sociais marcados especialmente pela abertura de uma garrafa de vinho. Como os lusitanos são os maiores produtores de cortiça, sua satisfação também é uma conveniência nacional.
No Ocidente, essa época de final de ano solicita uma participação direta geral, com grande apelo afetivo, mesmo dos que não se identificam com o cristianismo, além da concomitante intensificação comercial muito conveniente ao mercado de cada nação.
As duas últimas semanas de dezembro tentam manter uma aura de fascínio infantil, insistindo no vínculo familiar e dadivoso das pessoas, conduzindo-as à troca de presentes como prova irrefutável de afeição. Se não for presenteada, a criança se desespera; alguns raros adultos não se incomodam, mas a maioria deles sofre também.
Além da dádiva material, é necessária a integração festiva. Todos devem ensejar “feliz Natal” e “próspero Ano Novo”. Há que fruir dessa felicidade sazonal curta e concentrada.
As comemorações natalinas demandam uma exponencial comilança sem derivar para o contexto erótico. Ao longo do tempo, a Igreja excluiu a sexualidade das festanças greco-romanas, como ocorria nas bacanais.
A gula é apontada como um dos caminhos mais fáceis para a luxúria. A escritora Isabel Allende sugere que o prazer carnal mais intenso... “gozado sem pressa numa cama desarrumada e clandestina, tem gosto de baguette, prosciutto, queijo francês e vinho do Reno”.
Estes prazeres combinados melhor caberiam no plano íntimo, do par que se oferta desejo e atitude carnal, compartilha e explora profunda e intensamente seus potenciais eróticos.
O casal no jantar intimista e nos lençóis macios estimula-se pelo tato, acessa a química corporal, aprecia-se pelo gosto, pelo som dos atritos e envolve-se sentimentalmente. As imagens participam do conjunto erótico sem roubar a cena e a festança é exclusiva dos dois.
O prazer diversificado distancia-se das tentativas de orgias da atualidade. Essas focalizam mais o sexo coletivo, visual e exibicionista. Sem respeitar a tradição pagã, omitem o cardápio das gulodices. E, pelo modismo da plástica, capricham na aparência do corpo, na musculatura definida e na anatomia.
Parece que os cenários edênicos não se comprometem com a recomposição do panorama antigo nem do contemporâneo. As projeções do Paraíso não garantem sexo livre nem comida farta aos pecadores redimidos. Alcova e toalete não estariam à disposição deles.
Com esse vagalhão de fartura e afetividade que o Natal do Ocidente promove, os anseios de se alcançar uma sociedade mais justa, pacífica e prazerosa são postergados. A folia natalina e a farra do Réveillon parecem compensar as frustrações e decepções que a rotina do ano proporcionou.
A retrospectiva do passado recente não incomoda muito, mesmo para os que perderam absurdamente, como os flagelados dos estados vizinhos. Em Santa Catarina, a previsão de um Verão de sol e pouca chuva tem sustentado as expectativas do turismo. Há desabrigados que se consideram abençoados por não ter morrido, gratos pelas doações e confiantes em um período natalino até melhor do que os vividos em suas humildes casas originais.
A perspectiva de bons fluidos advindos dos cumprimentos e presentes anima as pessoas para o novo período, sugerindo energia revigorada. A chegada de um ano é equivalente a um parto, com a simbologia da cegonha e outras similaridades. Isso mobiliza o clima de renovação e prosperidade.
Quero que familiares, amigos e leitores desfrutem do momento, mas que possamos valorizar mais a seqüência de variações diárias, o trabalho intercalado com o fim-de-semana, o amor cotidiano e o prazer persistente; e menos as ondas festivas e episódicas. Estarei em férias, volto à coluna em 17 de janeiro.