O computador e o casal


06/12/2008

O terceiro milênio trouxe para os lares um artefato muito poderoso. No entanto, já acostumados à presença do microcomputador e à aceleração da tecnologia, os casais nem notam a sua presença diversificada, riscos e complexidade de funções.

Alguns compartilham o mesmo equipamento, outros fazem questão de um desktop exclusivo; e há os que preferem o laptop, evitando a competição.

Quando na família há um único micro, o respeito à geração multimídia faz com que os pais o instalem no quarto dos filhos: a prioridade é dos mais novos...

O computador em casa intensifica as virtudes e os defeitos da relação conjugal. E entra na relação com grande poder de influência.

Há algumas décadas, uma extensão de telefone poderia ser ferramenta doméstica para grampear as ligações do marido infiel. Hoje, decodificar a senha da esposa na internet é atualização sofisticada da mesma desconfiança.

Os chats, visitas aos sites de sexo, interações com terceiros e outras aberturas são recursos da rede de navegação virtual, não ameaçam nem aquietam os casais.

As novas tecnologias são modos ampliados e requintados de se checar as mesmas dúvidas provocadas por ciúmes, abalos na auto-estima e emoções volúveis das pessoas. A evolução das máquinas não contempla o amadurecimento emocional dos seres humanos.

Uma esposa insegura dos anos 70 indignava-se ao encontrar um exemplar da Playboy em uma gaveta do marido. Hoje, as publicações masculinas podem ficar expostas em revisteiro de sala de visitas.

Conhecer o ambiente virtual implica uma perspectiva de se entrar no mundo subjetivo do par. Às vezes, isso pode ser entendido como invasão.

Uma mulher acordou na madrugada, percebeu a ausência do marido e imaginou que ele estivesse na internet. Abriu a porta do escritório e o viu masturbando-se diante do micro. Escandalizou-se, clamou pelo divórcio, mas quando foi checar a tela, quase teve uma síncope: eram fotos dela mesma! Na terapia do casal, percebeu-se que ele a desejava muito, mas ela complicava demais o sexo.

O par que navega pode observar imagens de terceiros. Isso incomoda muito o outro - este se põe a checar aonde vai a navegação, de imediato, ou depois, quando irá vasculhar o micro.

Na masturbação, temos um ato individual - a pessoa serve-se de figuras do micro como se serviria de revistas, sem nenhum canal de comunicação entre observador e observado.

No sexo virtual, via webcam e/ou pelas mensagens tecladas, a participação é bipessoal, mesmo que seja por um mínimo sistema interativo.

A interação com um terceiro instiga uma complexa dimensão de conflitos. Há quem não se importe, mas a reação comum é vigiar, bolar meios de desvendar senhas, descobrir um possível caso, uma traição, se a relação é apenas virtual, se já houve encontros pessoais.

Toda essa demanda não vale a pena. Esquemas de segurança, bloqueio de acessos, espionagem, nada ajuda. A vigilância só tende a piorar a dinâmica do casal, pois incrementa as triangulações.

Se os pares têm problemas, é melhor dialogar sobre isso. E o diálogo é um exercício exclusivo para duas pessoas. Não dá para triangular. Envolver um terceiro é fugir do confronto que poderá solucionar os problemas.

A época é midiática, mas a essência é emblemática: os pares se amam o suficiente?

Cada um tende equivocadamente a perscrutar o universo do outro, empenhado em valorizar o próprio ego. O melhor seria investigar-se, questionando se ama o bastante para continuar no relacionamento.

Não há recurso tecnológico que meça o sentimento do outro. Provas de amor são as avaliadas por cada um dentro de si mesmo.

Faça seu comentário sobre esse artigo

Comentário

Outros artigos

E-value