O professor Carlos Alberto Di Franco, conceituado articulista do Correio, compartilha esse espaço conosco, assinando sua coluna aos domingos.
No seu último artigo (16/11), aborda a maior incidência de contaminação por HIV em pessoas com maior tempo de escolaridade, no Estado de São Paulo.
É instigante a referência paradoxal que esses dados apontam, pois seria de se esperar que a pessoa mais instruída fosse mais prevenida com a saúde.
A temática sobre Aids é pesada e penosa, desembocando no paradoxo, implicando valores, preconceitos e noções que desafiam conhecimentos e sentimentos. Mas há que se facear o imbróglio.
A contribuição de Di Franco é pertinente e elucidativa. Porém, gostaríamos de rever o trecho: “O novo mapa da Aids, sem dúvida preocupante, pode levar, mais uma vez, aos diagnósticos superficiais e, por isso, míopes: focar a questão apenas nas campanhas em favor do chamado ‘sexo seguro’. A camisinha será a panacéia para conter a epidemia. Continuaremos padecendo da síndrome do avestruz. Bateremos nos efeitos, mas fugiremos das verdadeiras causas: a hipersexualização da sociedade”.
A idéia de uma sociedade hipersexualizada efetivamente não significa evolução do ser humano. Sexo banal, mecanizado, reduzido a massagem instrumental, compulsivo, mesmo protegido, revestido pelo preservativo, empobrece os parceiros, afetiva e socialmente.
Um encontro genital de parceiros mal identificados ou anônimos desqualifica-os como espécie, assemelhando-os aos animais.
Mas, quando existe um consenso dialético entre pessoas esclarecidas, a perspectiva é a de fruírem um belo intercâmbio erótico sem prejuízos ou surpresas desagradáveis.
Por que, então, à medida que progridem em instrução, as pessoas não se cuidam mais? Como conceber contradição estatística no nosso Estado, o mais provido cultural e economicamente do País?
O eixo da questão é a linha do aprendizado. No Brasil (São Paulo está no preceito), há um excesso e uma carência essenciais. Sobram critérios moralistas, pudores dogmáticos, direta ou indiretamente ligados à religião. E faltam programas profícuos de educação sexual.
Aproveitemos dois estudos realizados nos últimos anos sobre países europeus que contam com boa educação sexual nas escolas, comparados aos que, como o Brasil, resistem em efetivá-la.
A pesquisa A Educação Sexual na Europa - Manual de Referência para as Políticas e as Práticas na Matéria, conduzida em 26 países da rede européia da Federação Internacional de Planejamento Familiar, apontou: “... se a educação sexual é largamente apoiada na Dinamarca e na Holanda, enfrenta ainda muitas objeções em países como Alemanha, Irlanda, Polônia...”.
E o Centro Europeu para a Vigilância Epidemiológica da Aids (Paris) indicou que precisamente na Holanda e na Dinamarca, mesmo com o grave problema dos UDI (Usuários de Drogas Injetáveis), a incidência de Aids vem caindo desde a década passada.
Em países abertos à educação sexual, as escolas oferecem esclarecimento direto, claro e explícito. Para os padrões brasileiros, as cartilhas aplicadas na Dinamarca lembrariam as nossas “revistas de sacanagem”.
O espírito moralista entende o sexo como obscenidade chula, tendendo a censurá-lo. Cerceado em seus anseios, o jovem esconderá seu erotismo, oscilando entre a impostura e o exercício oculto.
À medida que a sexualidade esteja velada, também estarão a camisinha, o anticoncepcional, a visita ao ginecologista, até a gravidez precoce enquanto o volume do abdome permitir.
É indispensável instruir púberes e adolescentes com um bom programa de educação sexual (erótica e amorosa).
Os adjetivos acrescidos são essenciais para não estreitar o alcance da sexualidade: é muito mais do que sexo, envolve erotismo amplo, afetividade, abrangendo toda capacidade humana de captar e trocar amor e prazer.
Esse espaço da página 3 esteve concentrado no tema. No dia 18/11, o professor Sérgio Sardinha de Azevedo publicou apreciável matéria sobre a educação amorosa.