Amor e heterocromia


15/11/2008

Anuncia-se globalmente que a vitória de Barack Obama significa a derrota do racismo, que enfim foi rompida a barreira que separava as etnias. Inegavelmente, como os negros americanos ainda são minoria numérica, percebe-se que muitos votos do eleito vieram dos brancos.

Valoriza-se esse episódio por analogia com a queda do muro de Berlim, ocorrida há quase 20 anos, tão decisiva para a efetiva globalização das nações. A unificação monetária da Europa - o euro estreou em 2002 - também derrubou muitas fronteiras conservadoras.

São datas realmente marcantes, registradas na História como significativas da nossa civilização. Também são excelentes oportunidades para que reflitamos sobre o seu significado na evolução da afetividade.

Sabemos, no mais profundo reduto das nossas almas, que ainda somos pobres e pequenos em matéria de amor. Se tivéssemos riqueza e grandeza amorosa, não nos encantaríamos com essa notícia, o homem negro na presidência do país poderoso não nos deslumbraria.

Situações que merecem registros históricos devem ser repensadas com olhar crítico, evitando-se aquelas que não representam verdadeiramente etapas de desenvolvimento amoroso.

A conquista dos democratas norte-americanos e a eleição de Obama são realmente uma linha divisória, marco indiscutível e revolucionário. É força transformadora que merece qualificação afetiva: subimos não só um degrau, mas um andar na escada de aprimoramento do amor.

Porém, nem sempre a Mídia e a História conseguem dimensionar a virtude anímica do acontecimento.

Muitos se lembram de Martin Luther King. Em 1963, liderou passeata histórica em Washington, proferindo seu famoso discurso I have a dream (Eu tenho um sonho). Este se concretizou 45 anos depois.

Não tão rememorada é a senhora Rosa Parks, cuja “viagem de ônibus” também se efetivou, após 50 anos! A costureira voltava cansada do trabalho quando um branco tentou expulsá-la do assento por ser negra. Mas ela não cedeu, iniciando outra jornada pela igualdade racial nos EUA.

King, Parks, outros negros e (des)coloridos empenharam anos de esforços em benefício dos oprimidos, dos menos amados. King foi premiado com o Nobel da Paz, em 1964. Outros são esquecidos, até seu assassino, um branco que o baleou em 1968 e foi condenado a 99 anos de prisão...

Em cada agrupamento humano, as reações à política dos líderes também deveria ser guiada pela bússola do amor, pois até os grandes pacificadores enfrentam oposições internas.

Há que manter liberdade e respeito na polarização das tendências: de um lado, temos abertura amorosa, democrática, descomprometida com preconceitos; de outro, concentram-se as defesas reacionárias, egocêntricas, tendenciosas. Quando King uniu-se ao “Movimento pela Paz no Vietnã”, em 1967, outros líderes negros não aceitaram mudar as prioridades dos direitos civis.

O racismo segue derrotado em outras circunstâncias, apesar de algumas resistências e flashes obsoletos de eugenia e xenofobia. Desde o século XIX, firmaram-se as abolições da escravatura. No entanto, o efeito memético (multiplicação cultural de uma idéia na civilização) não se propagou tão resolutamente.

Temos o reforço do esporte, felizmente, como vemos nas equipes e disputas olímpicas, nas contratações de futebolistas negros para jogar em times europeus cuja tradição exigia etnicidade branca.

A imparcialidade policial e judicial tem progredido, a polêmica sobre cota de vagas universitárias mobiliza muita gente aqui no Brasil, casais inter-raciais são mais comuns.

Os pares heterocrômicos necessitariam doses menores de heroísmo romântico para superar obstáculos em nome da paixão. Mas ainda nos resta muito a evoluir nos temas étnicos.

A nossa potencialidade amorosa se tonifica nesses momentos relevantes, lembrando-nos dos bons atributos e virtudes do espírito humano construtivo, sadio e digno. Mas também nos alerta criticamente, pois estamos atrasados, muitas vezes escorregando na arrogância, no narcisismo e na violência.

Faça seu comentário sobre esse artigo

Comentário

Outros artigos

E-value