Amor, crises e crimes

Amor, crises e crimes
08/11/2008

Qualquer que seja o desenrolar desse drama do mês passado em Santo André, que tanto mobilizou a opinião pública brasileira, ele condensa equívocos essenciais nas dimensões e conceitos das crises e dos crimes ligados ao amor.

O nosso mais nobre sentimento é muitas vezes deturpado, usado em argumentações de esperteza perversa e retórica, servindo apenas à conveniência de uma pessoa ou grupos.

Se policiais definem um episódio como “crise amorosa”, toda estratégia será articulada em cima dessa conclusão - só poderia redundar em grave erro!

Definir opiniões e condutas sobre o amor é arriscado, imprudente.

Profissionais de Direito, com exceções elogiáveis, usam do amor conforme as demandas dos clientes. Se ao acusado convier ser passional, então o amor será uma paixão criminosa. Se interessar um autor ciumento, lá vai o afeto colorir-se de um preponderante ciúme, loucura amorosa capaz de guiar a conduta do réu.

Maus políticos manobram os sentimentos com habilidade espantosa. Em época de eleições, sugerem grande potencialidade de amar, solidariedade exuberante com seus eleitores. Empossados nos cargos, praticamente nem se lembram dos que os elegeram. Ou melhor, irão se lembrar convenientemente na próxima candidatura.

O mau político e o eleitor lembram o relacionamento entre o homem canalha e a parceira iludida: para conseguir o sexo, ele promete amá-la, jura casamento e não cumpre nenhuma promessa. Para transar de novo, recorrerá ao mesmo jogo sujo “por amor”.

Esta convenção nociva, fundamentada no machismo, ainda vige em relações contemporâneas, infelizmente. E realça uma sujeira que é do caráter, não do sexo, como defendem os valores do moralismo.

Na área da saúde, por paradoxal que pareça, cometem-se grandes equívocos em nome do amor. Iniciativas lamentavelmente patogênicas ocorrem com médicos de diferentes especialidades, psicólogos, fisioterapeutas, enfermeiros, fonoaudiólogos, homeopatas, terapeutas de diversas linhas.

O trabalho dos profissionais de saúde direciona-se para um diagnóstico e o tratamento correspondente. Os enganos e prejuízos vão do início ao fim dessa trajetória. Muitas crises emocionais são mal aproveitadas, medos se mesclam com o amor.

O pediatra sugere que a criança é mal amada pela mãe e deve ser educada pela avó; o ginecologista concorda com a mulher “carente” do amor do marido (e isso explica a "frigidez"); o psicoterapeuta também ratifica a queixa do paciente e “aconselha” um caso extraconjugal; a enfermeira acha que aquele internado recebe pouca visita e lhe dá um sonífero que sobrou de outra prescrição.

No trabalho, a hierarquia é usada inescrupulosamente como aliada do amor. O superior assedia o subordinado referindo-se a uma paixão dominante, que toma conta dele e permite o abuso.

O envolvimento dos sacerdotes com prosélitos é outro destaque nos meios de comunicação. Já existe uma suspeita implícita, associação automática com pedofilia. Isso desprestigia o relacionamento comum entre um padre e uma mulher, anulando o seu caráter de pureza revolucionária capaz de contestar o tradicionalismo do Vaticano.

Desejo e afeto são determinantes nos comportamentos de qualquer pessoa, mas não para servir o poder discricionário.

Os vigores do amor e do sexo não devem favorecer o narcisismo, a vaidade, o egoísmo perverso, a criminalidade.

Ansiamos conviver melhor, buscar paz e harmonia, fruir de afeto aprimorado e aperfeiçoamento ético. Para isso, necessitamos de revisões e reflexões diligentes quando o amor é focalizado na mídia.

Exemplos como o de Fabiana Bonilha, colunista do jornal Diário Braille, são indispensáveis: escrevendo na página 3 do Correio Popular do último dia 6, ela realçou a importância de superarmos nossa cegueira espiritual, muito mais significativa do que uma deficiência visual.

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