Cobranças amorosas


25/10/2008

As relações humanas envolvem uma contabilidade afetiva implícita. As trocas nem sempre são proporcionais às carências, alguns entendem que oferecem muito, outros sempre consideram pouco o que recebem.

O julgamento desse intercâmbio sentimental é algo individual, típico de cada pessoa, uma referência abstrata. No entanto, costuma funcionar como uma interpretação qualitativa apoiada em valores quantitativos, uma verdadeira aberração numérica...

É comum observarmos queixas do tipo: “ela não supre as minhas necessidades”, “ele me deixa falando sozinha”, enquanto os pares respectivos diriam: “sempre dei a ele mais do que precisou”, “ela não me dá tempo para falar, não me escuta”.

As divergências sobre essa afetividade contábil têm início logo na paquera. Três ou quatro encontros depois, a moça entende que já seria para firmar um compromisso enquanto o moço nem imagina essa possibilidade.

Ao longo do namoro e da convivência, as cobranças e defesas se revelam cada vez mais expressivamente e perturbam a estabilidade do casal.

Nos escritórios de advocacia, nos consultórios dos psicoterapeutas, nas salas de audiência jurídica, nos gabinetes pastorais, nas reuniões com sacerdotes, o que se vê nos pares em crise, resumidamente, é um desacerto no balancete amoroso, mesmo que o debate se concentre em quantias específicas de dinheiro, pensão e bens.

Cobrar e pagar afetivamente é um panorama complexo, cuja auditoria também não define contratos justos e indiscutíveis.

Acertar essas contas é problema atávico, um nó górdio do nosso inconsciente coletivo.

Antes mesmo de entendermos a aritmética aristotélica, existiam valores numeráveis para o ajuste de conflitos em determinadas populações e tribos. Ainda hoje, depois do advento da álgebra, certos povos conservam esse estilo.

Na Índia, há um costume secular: mulheres desenham figuras com pó-de-arroz usando regras que lembram teorias recentes das linguagens gráficas da Informática.

No Mato Grosso, os tapirapés usam o número “2” como unidade. O grupo de Etnomatemática da Unicamp explica: “Eles acreditam que nada nem ninguém sobrevive sozinho. Qualquer coisa lá é em par; isso muda completamente a lógica matemática”. Nessa tribo, cada criança que nasce ganha um amigo e os dois permanecem juntos até que um deles se case.

O espírito gregário do ser humano deveria facilitar as aproximações e negociações. Entretanto, as preocupações paranóides, a malícia perversa, os anseios de poder sustentam os bloqueios ao amor e desviam essa vocação.

No plano material, queremos os resultados numéricos. No raciocínio espiritual, a imponderabilidade pode ser contornada com sugestões variadas.

Shantideva, um mestre budista do século 8, ensinou: “Toda felicidade do mundo/ Surge do desejo de que os outros sejam felizes./ Todo o sofrimento do mundo/ Surge do desejo de que nós mesmos sejamos felizes”.

Cristo personificou o mercado em Mâmon, uma espécie de deus das riquezas, que se opõe a Deus, indicando que o homem não pode servir a dois senhores...

E Freud classificou os animais em duas espécies principais: os autoplastas e os aloplastas. Na busca da sobrevivência, os primeiros modificam a si próprios, e os segundos (incluindo a humanidade) modificam o ambiente.

Na relação bipessoal, como o radical plastia implica reformas, plásticas, teremos: essas podem ser feitas em mim (auto) ou nos outros (alo). Quando entendo que as dificuldades estão fora de mim, inclino-me a cobrar deles. O aloplasta é um credor. Por outro lado, quando reconheço que os problemas estão comigo, vou reformar a mim mesmo. O autoplasta é um devedor.

Conforme o espírito dos pares seguirem a bússola do amor e os perfis se flexibilizarem, teremos negociações fecundas para rever e retomar as relações ou para interrompê-las.

1 Comentário(s) desse artigo

1. sheilla
27/10/2008

O amor, o afeto se expressa na balança comercial parceiros. Quando estão bem, felizes, são só risos e o saldo é um superávit . Quando começa as desavenças, a falta de sintonia desequilibra a balança. E o que era positivo vira negativo. O déficit é enorme. E aí os parceiros ficam alucinados para reverter o balanço negativo. Maquiam balanços, refazem contas, ajustam aqui, tentam cortam os pesados custos emocionais da relação. Mas ainda assim, a contabilidade fica negativa. O passivo emocional não mais pode ser recuperado e a falencia é decretada. Pesados os ativos e passivos, a relação mostra-se desastrosa. Do belo inicial fica apenas o ressentimento final. e a certeza, ao menos para umm deles na relação, que tudo foi tempo perdido. Tempo, neste caso, tbem se traduz em dinheiro. Pois a contabilidade amorosa tbém pode ser mensurada em valores quando tudo termina de forma unilateral e sem um minimo de respeito. Pausa para pensar no que estamos todos fazendo com nosso "capital amoroso". Onde estamos aplicando nossas reservas amorosas. Qual o retorno dessa aplicação. Ela envolve alto risco e alto retorno. A adrenalina compensa o stress sofrido? Ou o stress sofrido é compensado pela alta taxa de retorno. A pensar.

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