O capitalismo, sistema econômico hegemônico no mundo atual, é intrinsecamente destinado a gerar lucro. As corporações dedicam-se a ganhar dinheiro, sem o que perdem a razão de existir.
A saúde da empresa é essencial, mesmo que ela seja alcançada por esforços insalubres, demandando até que o funcionário se sacrifique, trabalhe doente. O setor de “recursos humanos”, a rigor, funciona como reserva de interesses corporativos e não como um resguardo para os empregados.
À medida que envolve as finanças das nações globalizadas, o modelo capitalista tende a ser responsabilizado pelas malvadezas do mercado, as injustiças da sociedade.
Emprestando uma perspectiva espiritualista, podemos supor que, se a alma de Karl Marx estivesse por aí em jornada errática, teria grande consolação com essa convulsão financeira do mundo globalizado, compensando-se com a frustração comunista das décadas passadas.
O capitalismo contrasta com os valores humanitários tradicionais, parecendo combater ou inibir nossas possibilidades de trocar sentimentos nobres, como se fosse a maior oposição ao amor. Nos textos bíblicos, Cristo personificou as riquezas em Mâmon, antepondo-o a Deus, para que os homens escolhessem um deles, pois não se pode servir a dois senhores.
O sociólogo Max Weber indicou a conexão germinal entre economia e fé religiosa, explicando o maior desenvolvimento econômico nos países protestantes em comparação com os católicos. Nestes, a conquista da felicidade é lançada para a outra vida: a culpa invalida a acumulação de capital e a lógica da divisão do trabalho, pilares do capitalismo.
No ano passado, a Dinamarca, neste ano, a Finlândia, os países nórdicos têm liderado o ranking de felicidade, levando em conta a menor desigualdade social (a maioria da população vive como classe média alta). Nessas duas nações, predominam os luteranos, cerca de 80 a 90%.
A culpabilidade católica se sustenta na História, reciclando a máxima que o bispo francês Jacques Bossuet pronunciou no século XVII: “o desejo de riqueza é a raiz de todos os males”.
No Brasil de hoje, emergem fiéis com padrão distinto de culpa. Segundo Marcelo Néri, o aumento relativo do número de evangélicos pentecostais ocorre na estagnação e instabilidade econômicas. Uma ligação intensificada entre o espírito empresarial e a organização doutrinária seria a marca dos novos ramos religiosos no Brasil e na América Latina da atualidade: a mídia está pródiga em revelações sobre fortunas de empresários das religiões emergentes.
Os tempos atuais de crise econômica devolvem ao debate os anseios humanos por segurança e afeição. Dependentes e carentes por imanência, os homens passam a vida buscando meios de garantir a subsistência e sonhar com a imortalidade.
A natureza humana ainda não é bem entendida nem assumida pelos próprios homens: não aceitamos as limitações da finitude e vamos criando ilusões que nos sustentem com a capacidade de driblar a morte.
Recorremos ao dinheiro, entramos em pânico quando ele falta, do mesmo modo como nos apavora uma doença grave, uma doença terminal.
Subir na escala social, estar no topo da pirâmide parece criar garantias de que todos os problemas serão debelados. Sabemos que não adianta, mas corremos atrás da moeda e do prestígio vertical.
Temos que trabalhar para viver e também podemos adquirir riquezas, desenvolver uma prosperidade material.
Por que não conseguimos fazer isso de modo equilibrado, socialmente mais justo? Por não ter concebido a “economia do amor e do prazer”, não concentrar os recursos materiais necessários na vida como “bem-estar humano”. Isto é, não especulamos sobre os amores. Faltam-nos diligências constantes para ampliar o afeto e o erotismo, dentro de um nível de insegurança, problemas, conflitos e a limitação intransponível da morte.
1. sheila
24/10/2008
É isso, como forma especulativa o amor é apenas uma mercadoria, cujo o preço esta em constante flutuação. O mercado dita as regras. Os especuladores arriscam na loucura do tudo ou nada. Alavancagens insanas. Capital amoroso fugidio. Sem espaços para lastros e nem rastros. E o afeto apenas uma ilusão na desvairada roleta do vermelho 21.