A capacidade de abstração é o principal atributo da inteligência. Ela alimenta a nossa subjetividade, permitindo que a mente transcenda o mundo real e percorra o universo dos sonhos.
Indo e vindo, o pensamento se apóia nos pilares objetivos como se eles tivessem molas impulsoras e lança-se no limbo onírico. Aí, ele turva os horizontes da realidade, indefine as fronteiras da ilusão. Dissipada a impulsão, ele volta, recarrega-se, e vai, recicla...
O pilar essencial da realidade é sustentado pela ciência, atrelada à razão e à certeza. O mergulho fundamental na fantasia é norteado pela imaginação, o devaneio.
Nesses tênues limites e translúcidos vislumbres, vamos provocando um dos setores mais polêmicos e delicados da nossa existência histórica: o confronto polarizado entre a plausibilidade e a fé, os fatos e os mitos.
Os padrões concretos reafirmam-se nas experiências, enquanto os valores míticos persistem nas expectativas. As contradições tendem a ser esclarecidas, de um lado, e mantidas como misteriosas, do outro. Circulando com esses paradoxos e certezas, dúvidas e convicções, muitas vezes retornamos à tradicional polarização entre conhecimento e crença.
Na atualidade, entretanto, ciência e religião estão menos díspares. Os cientistas estão mais à vontade para anunciar descobertas, os clérigos não resgatam inquisições reacionárias.
Passa a existir um consenso que respeita os esforços e as demandas que visem o bem comum, apesar de alguma resistência radical em determinadas fases e regimes políticos. A globalização, no entanto, contorna os bloqueios. Se os EUA estiverem atrelados a alguma proibição esdrúxula, algum país da Europa atenderá a seqüência necessária.
Como se tem demonstrado que os julgamentos racionais das pessoas diante de um dilema são mais emocionais do que se imaginava, entende-se que a moral não é baseada só na cultura e faz parte da natureza humana. Nascemos com ela, mas não com o moralismo.
O neurocientista português António Damásio trabalha nos EUA. Ele e um psicólogo americano de Harvard, Marc Hauser, demonstraram que pessoas com lesão na integração cortical de sentimentos à consciência (anatomicamente corresponderia ao córtex frontal ventromedial) tendem a pensar de maneira mais "utilitária", a julgar com frieza.
Uma das questões estudadas implicava a seguinte situação imaginária: famílias se acumulavam em um porão, escondendo-se de soldados que procuravam matar civis. Um bebê começou a chorar, e a única maneira de evitar que todos fossem descobertos seria bloquear a respiração da criança pelo tempo necessário, mesmo que isso provocasse sua morte. As pessoas lesionadas tenderam a responder pelo bloqueio.
A médio e longo prazo, podemos descobrir que as condutas imorais e criminosas seriam sempre ligadas a lesões, doenças, e não à premeditação, ao arbítrio cruel de cérebros sadios. E até imaginar que o medo que sustenta a necessidade de crença religiosa também decorra de alguma alteração cortical.
A evolução tecnológica e científica ainda perde muito de seus recursos e empenhos para as (in)seguranças das armas, equipamentos bélicos e do fanatismo religioso.
Poderíamos acelerar as pesquisas sobre o cérebro moral e o amoroso, estudar mais profundamente as razões que minimizam a conduta ética, o prazer erótico e a justiça social.
Há medos enraizados e muito influentes que permanecem como indagações abstratas e nunca são desvendados. A História aponta esses registros míticos como presença indefectível nas diversas civilizações. O próprio cientista pode desviar o foco deles sem clara percepção disso.
Poderíamos viver sem mitos? Talvez, a partir da desmitificação do amor e a desprofanação do sexo, avançando para a prática efetiva do exercício amoroso e do erotismo ético, indo além da esmerada retórica e vetusta tradição que os mantêm na teoria e no pecado.