Educadores sexuais, sexólogos, terapeutas sexuais e pensadores contemporâneos de modo geral consideram a sexualidade como um aspecto intrínseco do ser humano, muito mais expressiva do que o ato sexual.
O erotismo humano extrapola a banalidade do intercurso genital, do foco que concentra o prazer na relação pênis-vagina, expandindo a satisfação para todas as outras expressões sensoriais objetivas e subjetivas.
Acompanhar o heroísmo dos atletas paraolímpicos é uma oportunidade fantástica de se deleitar com a arte e a técnica da superação dos limites.
As competições esportivas contemplam a disputa dos recordes, o destaque entre os melhores. Apesar do inegável elitismo atlético, descontados os abusos de dopping, os vencedores têm os méritos. Esforçam-se muito, aprimoram-se bastante, trabalham ao extremo seus corpos perfeitos. Imaginem os que têm mutilação ou imperfeição corporal!
As pessoas com deficiência física têm que enfrentar, além das seqüelas pertinentes ao seu quadro clínico, um gigantesco contingente de preconceitos. Em algumas áreas, porém, elas têm alcançado vigoroso sucesso contra idéias pré-concebidas e tendenciosas. Nas práticas esportivas, conseguiram uma profunda admiração do mundo todo, ratificada nessa recém terminada Paraolimpíada de Pequim.
A participação de paratletas cresceu, a mídia divulgou mais amplamente os episódios do evento, a publicidade e o mercado o valorizaram.
Todo esse destaque coloca as pessoas com deficiência em observação, permitindo avaliar também em que setores evoluem menos. Na sexualidade, há muito que progredir.
Desde os tempos da mitologia grega, o arquétipo Afrodite, a deusa do amor (depois, Vênus, no fabulário romano, em latim), é venerado no mundo ocidental pela sua beleza, ternura e voluptuosidade.
A força arquetípica do mito sugestiona a nossa cultura de duas maneiras distintas: positivamente, quando orienta os seres humanos a buscar gratificação para as suas pulsões libidinosas, atendendo ao anseio do prazer; negativamente, quando motiva a eleição do belo e o esteticamente correto como únicos modelos eróticos possíveis.
A ideologia da beleza, inerente à figura da deusa, impregnou a mente das mulheres e dos homens, de forma que a sensualidade e a competência sexual estabilizaram-se como exclusividade do corpo escultural - o poder de atração é proporcional à sua plasticidade. Assim, aquele que difere do protótipo estético não é considerado atraente.
Como o senso comum desconhece os aspectos anatômicos e fisiológicos das lesões e seqüelas, um paraplégico, além de se inviabilizar como imagem atrativa, pode imaginar que jamais desfrutaria de um orgasmo. Também poderia, ao invés de ampliar e variar cada dia mais, reduzir seu horizonte afetivo e erótico imaginando que só namoraria com pessoa “igual”.
Os valores sexistas pressionam muito os considerados normais e eles não poupariam as pessoas com deficiência. Podem até sobrecarregá-las, predominantemente com exigências machistas. Em um estudo sobre a sexualidade de pessoa com deficiência, Inácia S. X. de França recorre a uma frase que bem destaca a perspectiva do machismo nos relacionamentos: “No silêncio do discurso, se apreende que a fidelidade feminina é uma obrigação e a do homem é uma expectativa”.
Há pessoas com graves mutilações, outras com defeitos físicos que comprometem intensamente a estética, mas elas namoram, transam, casam. Há as que escondem um pequeno desvio de coluna, dificultando qualquer chance de uma relação.
As Paraolimpíadas devem ser aproveitadas como um verdadeiro salto, um pulo olímpico para uma nova vida amorosa e erótica das pessoas com deficiência física: os mesmos impactos provocados pelos resultados esportivos podem se alcançados nos encontros íntimos, compartilhando enlevo efetivo e atletismo sexual.
1. Rosário
23/09/2008
Gostei muito do artigo. Penso que se as pessoas com problemas físicos expandirem seus horizontes, não somente nos esportes, mas num contexto mais amplo, como por exemplo: cultura, educação, etc....Se esse indivíduo tiver uma cabeça fantástica, sem preconceitos e ir à luta em qualquer situação, atividade, etc..., obviamente, já será um vencedor, no sexo, no amor, na vida, enfim... Nada e ninguém o impedirá de alcançar a felicidade, seja no esporte, no amor e/ou na cama... bjs. Rosário.