O erotismo é apreciado de diversas maneiras, ora com sofisticação exuberante, ora com penúria exasperadora. E, em determinadas ocasiões, com as duas. Essa moda “gastrossexual” tem essas características dúbias.
Apresentada como nova tribo masculina, depois do metrossexual (homem com aparência cuidada, quase feminina), do seu oposto - o ogrossexual (descuidado, de visual rústico) e do übersexual (homem em reestilo clássico), chega com a pretensão de atrair as mulheres de modo mais expressivo.
Imagens facilmente reconhecidas na mídia, tais como os chefs de cozinha Jamie Oliver, Claude Troisgros e Olivier Anquier, são referências desse modismo. No programa Casual, incluir um convidado gourmet é hábito ditoso de Almir Reis.
O gastrossexual seria o homem de currículo profissional bem resolvido que adora compor receitas saborosas, cozinhando por prazer, revelando habilidades no fogão e sutileza para seduzir parceiras.
O adjetivo vem de uma instituição britânica que faz pesquisas de mercado, a Future Foundation. Em um dos seus mais recentes levantamentos, 48% dos entrevistados disseram que saber como preparar pratos e cozinhar torna a pessoa mais atraente. E 23% dos homens de 18 a 34 anos revelaram que exercitam os pendores gastronômicos para atrair uma mulher.
A pesquisa indica que essa harmonia masculina com a culinária decorre do aumento de homens que vivem sozinhos: o tempo médio que eles dedicam por dia às panelas cresceu de 5 para 27 minutos, desde 1961. Também atribui esse resultado às mulheres que deixam as casas pela carreira profissional.
No entanto, as moças não podem se animar muito: os moços ainda não se identificaram com outras atividades domésticas, como lavar roupas, fazer faxina...
Os mercadores de plantão, sensíveis às movimentações e mudanças comportamentais, já oferecem maior volume de produtos para público gastrossexual, tais como utensílios de cozinha e temperos específicos.
Antes da virada do milênio, muitos homens estiveram à vontade na cozinha, pelo menos pilotando a churrasqueira, nos finais de semana.
Nos melhores restaurantes, o chef ainda é do sexo masculino, apesar da presença cada vez maior do gênero feminino, como vem ocorrendo em todas as profissões.
As mulheres sempre aspiraram pela evolução sentimental dos homens - estão tentando dar lições de amor para eles há séculos. No entanto, os dois lados desenvolveram pouco progresso nesse sentido: elas não conseguem ensinar de modo efetivo nem eles aprendem como bons alunos.
Quando um homem assume de forma bem assimilada uma tarefa tradicionalmente feminina, os dois sexos interpretarão as circunstâncias de modo peculiar, cada um acompanhando o perfil psicológico correspondente.
O homem, com sua perspectiva racional, ativando mais o cérebro esquerdo, seguiria os resultados das pesquisas mais sistematicamente e procuraria explicações de ordem mais científica. Por exemplo, entenderia que, no sistema límbico, os centros corticais da fome e do sexo estão próximos, favorecendo eventuais conexões.
A mulher, com sua inclinação emocional, mobilizando mais o cérebro direito, tenderia a sentir o homem espiritualmente mais próximo - é como se ele tivesse aprendido um pouco dos ensinamentos afetivos. Isso poderia realmente facilitar o relacionamento e estimular a sensualidade, em particular quando ele se esforça para montar uma receita exclusiva e carinhosamente devotada a ela. Cozinhar com amor e carinho pressupõe uma intimidade erótica na mesma linha deleitante.
Porém, se for um expediente matreiro, um mero jogo de cena para impressionar a parceira, tudo não passará de modismo barato, uma babaquice imitativa sem graça e eroticamente miserável que não sensibilizará uma mulher de verdade.
1. Rosário
19/09/2008
Gostei muito do artigo. Há muitos homens que cozinham por prazer, mesmo. Não vejo o ato de cozinhar, como essencialmente feminino. Temos provas que os melhores cozinheiros (vide bons restaurantes), são do sexo masculino. Graças a Deus, considero-me uma felizarda nesse aspecto. Meu namorado, além de gostar de cozinhar ("de brincar", como ele diz, na cozinha..), faz isso com frequencia para e por mim. Para me agradar e me ver feliz, evidentemente. Sou uma privilegiada como tantas que hoje circulam por aí, nesse aspecto... Beijos. Ro.