No entanto, todos os dias a contemporaneidade acelera os avanços da Neurociência e ela já pode arriscar uma compreensão objetiva dos sentimentos do amor e do erotismo.
No Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, dois cientistas estão divulgando muitos trabalhos sobre o tema: Suzana Herculano-Houzel e Jorge Martins de Oliveira.
Até há pouco tempo (nem uma década), esses desejos e emoções, intensamente presentes em nossa espécie, eram considerados inviáveis para estudos sistematizados. Hoje, há meios científicos de demonstrar o que acontece no cérebro se a pessoa estiver diante do amado, quando vier a abraçá-lo, se forem estimuladas lembranças comuns etc.
A presença do amado ativa naturalmente o chamado “sistema de recompensa”. Em noção telegráfica de anatomia, este conjunto engrena-se no córtex límbico, bem no centro da cabeça, e se ramifica especialmente para adiante, no lobo frontal.
O sistema mobiliza sensações de felicidade, bem-estar e prazer, ensinando a associar sensações positivas com o objeto do interesse amoroso, querendo continuar em sua presença e até ansiar por ela. A expectativa é especialmente vigorosa quando a afeição é reforçada pelo sexo voluntário, consensual.
Na seqüência sexual do orgasmo, liberam-se hormônios e mediadores químicos, principalmente a ocitocina, o que ativa mais as conexões de recompensa.
Além do prazer, à medida que haja consenso de desejos e amor correspondido, a presença da pessoa amada é também ansiolítica. Mesmo antes de provocar excitação sexual e levar ao orgasmo, um abraço carinhoso já incrementa a circulação de ocitocina, reduzindo a atividade das vias cerebrais responsáveis pelo medo, facilitando a aproximação e a entrega.
Se um animal menos desenvolvido sente-se em segurança em seu nicho ecológico, termoestável (aquecido), alimentado e sem sede, permanece ali com o “sistema de recompensa” atendido. Se algo estressá-lo - um predador ou a própria fome - ele se movimentará para estabilizar-se de novo.
À medida que se desenvolvem na escala zoológica, os animais têm mais exigências: satisfação sexual e reciprocidade afetiva, aceitação e posicionamento no grupo, na “família”, características dos mamíferos superiores e primatas. O homem demanda mais: reconhecimento do papel social e estabilidade econômico-financeira.
Entretanto, em humanos, quando baixa a dopamina, os estímulos autênticos, “naturais”, já não se mostram suficientes para gerar boas sensações. Buscando reequilibrar a química límbica, o indivíduo recorre a alterações comportamentais, até de natureza perversa e/ou ao consumo de certas substâncias. Prováveis estimuladores de dopamina no sistema de recompensa: álcool, cocaína, nicotina e carboidratos.
Como a resposta é temporária e a diligência pelas drogas ou pelas atitudes perversas aumenta, o indivíduo vai à compulsividade. Também os impulsivos (hiperativos, com déficit de atenção, os de sexualidade aberrante) apresentariam deficiências da recompensa.
A Neurociência pode expandir e aprimorar o tempo e o espaço do amor em nossas vidas, desde que a concretude dos dados químicos e o interesse econômico não inventem de vender pílulas que façam artificialmente o papel do amado...
1. Mário Sabha Jr
10/09/2008
Muito bom artigo, Mota. Gostei de conhecê-lo na segunda feira passada. Se quiser e achar interessante, acesse meu site: www.mariosabha.com.br Grande abraço... Mário
2. Rosário
14/09/2008
O artigo é sensato e indubitavelmente correto. Você foi simples e feliz nesse artigo. Parabéns, Rosário.