Da cama à câmera


30/08/2008

Ainda ouvimos a expressão: “o casamento se resolve na cama”, tanto dos pares que tentam melhorar seus relacionamentos quanto dos amigos que anseiam ajudar nas crises.

Há casais que verdadeiramente se beneficiam com o sexo. O prazer contrabalança algumas divergências, favorece tolerâncias, promove concessões. Carne satisfeita acalma o espírito.

Mesmo como instrumento de manobra política, chantagem emocional, o erotismo pode ser benéfico. Ou seja, quando o par ardiloso não finge excitação nem orgasmo. Apesar da intenção de negociar com o sexo, se ele entrou no clima, excitou-se e gozou, o jogo não foi simples impostura, não predominou como ato hipócrita.

Para cada indivíduo, sabemos que o período após o prazer orgásmico tem o poder de representar um importante relaxamento, até mesmo um grande alívio. Há quem dorme muito melhor depois do sexo - pode inclusive ter insônia se não transar. Uma mulher diz que tolera proporcionalmente tantos dias úteis quantos orgasmos tiver no fim-de-semana. Um homem só trabalhava com entusiasmo se tivesse uma relação sexual pela manhã.

Na engrenagem de um casal, isso implica variações enormes. Nem sempre as conexões são favoráveis: um par gosta da transa quando seu sono leve o permite acordar na madrugada, mas o outro só consegue despertar em qualquer horário através de um longo e complexo ritual.

E nem abordamos cefaléias, indisposições do estresse, medo de engravidar, derrota do time preferido, períodos da TPM etc!

Temos aquele par esforçado (geralmente mulher, mas hoje já encontramos homens que usam facilitadores da ereção), o qual se propõe ao sacrifício, enfrenta suas próprias resistências, acreditando no benefício que o sexo promove na relação. É claro que, mesmo que não se erotize com as tentativas, pode repeti-las porque melhoram o humor e o diálogo do casal.

Um trabalho de seis semanas no Exterior separou marido e mulher que convivem há quase dez anos e têm um forte ritmo sexual, com relações quase diárias. Durante a temporada de afastamento, o casal fez uso da webcam, conseguindo aproximar-se da freqüência habitual de sexo.

Cada dia mais comum, equipando a presença corriqueira dos micros nas moradias das pessoas em todo o mundo, as câmeras vão se tornando um acessório muito usado.

As imagens disponibilizadas têm caráter de reality show doméstico, com interação e simultaneidade incontestáveis, proporcionando uma conjugação vigorosa dos órgãos dos sentidos, apesar da falta do toque direto, da sensação táctil dos dedos, da pele erógena, da boca, da língua.

Os parceiros se vêem, exibem-se, mostram visualmente que estão se manipulando, expressam-se sonoramente com os gemidos, suspiros e o fundo musical. Há o que envia seus odores pelo Sedex, o que compra e borrifa o perfume do outro no ambiente para autenticar o encontro.

À medida que a tecnologia facilita o intercâmbio erótico e sentimental de adultos, em condutas assumidas, consensuais, sem concorrer neuroticamente com as experiências reais, ela é bem-vinda, um recurso saudável e prazeroso.

É como masturbação convencional. Se o indivíduo prefere erotizar-se em detrimento das suas relações vividas na realidade, restringe seu horizonte prazeroso e afetivo.

Quando a pessoa não se expõe, evitando conectar a própria webcam (ou não a tem), e observa imagens dos outros ou as sugeridas por participantes das salas de bate-papo, há um perigo: a oferta de figuras e cenas explícitas pode empobrecer as fantasias com risco de estreitamento da criatividade e do ambiente subjetivo da sua vida.

A subjetividade amorosa é o substrato dos vínculos dos casais. Sem essa goma abstrata essencial, é possível que o sexo, real ou virtual, nunca aconchegue o casal.

O corpo que sossega a alma norteia-se por ela...

1 Comentário(s) desse artigo

1. João José Martins Tavares
07/09/2008

Imagino haver dois tipos de fantasias! Eróticas em todos os sentidos onde fazer sexo é fracção mínima dentro de todo o pulsar num relacionamento estável, e, hipócritas, facilitadas pelo mundo virtual. Dentro das fantazias hipócritas fazer sexo deve estar na razão inversa do tempo dedicado ao trabalho e todo o quotidiano restante. E tudo gerará insatisfação. Qualquer orgasmo dentro de fantasias hipócritas ficará muito aquém dos benefícios e do necessário prás tomadas de decisões diárias. No artigo do Dr Mota dia 06/09, a bem duma orientação a homens e mulheres seria interessante esclarecer a intransigência das fêmeas animais em fazer sexo sem estar no cio.

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