Longe Dela, contíguo ao amor

Longe Dela, contíguo ao amor
16/08/2008

Jovem de 22 anos dizia à amiga que tinha se encantado com o filme Longe Dela: "acho que as pessoas que amam pensam em viver juntos até morrerem. Quanto mais tempo passa, vejo os velhinhos enamorados como os mais belos casais do mundo" .

À primeira impressão, a beleza viçosa de um casal na flor da idade transparece saúde, mantém a morte à distância, favorece a estética. No outro pólo, um par de idosos será conectado inevitavelmente à proximidade da morte, às chances das doenças degenerativas e à formosura decadente.

É necessária uma exponencial nobreza de espírito para que a pessoa consiga ver além da embalagem do corpo senecto, dimensionando o enlevo lírico e o engate sentimental das almas que se amam e não se abalam com a decrepitude evolutiva.

Nos ditames contemporâneos, as exigências com a produção da imagem visível são imperativas. Mesmo que seja tudo pura maquiagem, que não passe de exterioridade enganosa, há grandes esforços para sugerir figuras renovadas e belas.

Entretanto, temos limites para esses aspectos estéticos e joviais. Toda vez que um cirurgião plástico trabalha um rosto ou quando um publicitário produz uma imagem no Photoshop, há os devidos cuidados para que não exagerem, pois podem piorar a aparência original.

Apesar dos valores modistas e superficiais, felizmente existem pessoas capazes de prestigiar o conteúdo afetivo e anímico de si próprias e das outras. Isso permite até o enfrentamento de crises muito dramáticas como as que se dão na doença de Alzheimer. Este é um quadro cruel, grave, pesado, tanto para o paciente quanto para os cuidadores, especialmente para aqueles conectados por ligações afetivas profundas.

O filme focado é do Canadá. Tem uma revelação natural e poética dos fatos e emoções ocorridos nessas vivências. Foi produzido em 2006, dirigido por Sarah Polley, então com 27 anos, atriz canadense que estreava na direção.

Em breve sinopse, respeitando quem ainda não o viu (as idades dos atores correspondem à época da filmagem): um casal sem filhos tem 44 anos de convivência, quando a mulher (Julie Christie, 65) começa a apresentar os sintomas iniciais da doença. O esposo (Gordon Pinsent, 76) não quer acreditar nos acontecimentos, mas tem que se curvar à realidade. Progressivamente, a piora exige que ela seja acomodada em uma clínica. Lá, desenvolve uma terna e poderosa amizade com outro hóspede (Michael Murphy, 68), cuja esposa (Olympia Dukakis, 75) vem a conhecer posteriormente o marido da doente. Os vigorosos dramas sentimentais do filme nunca escorregam na pieguice. Dois núcleos de emoções conflituosas são decisivos para o marido da paciente: lidar com a companheira amada que o ignora paulatinamente e com a aparente melhora que a amizade com outro homem provoca nela. A possibilidade "terapêutica" de aproximá-la do homorrival é comovente.

Qualquer interessado em amor deve assistir ao filme. O roteiro, também assinado pela diretora, foi baseado em uma história curta - um livreto de 48 páginas - de Alice Munro (autora várias vezes premiada no Canadá, hoje com 77 anos), cujo título corresponderia a O Urso Visitou a Montanha.

Há lições amorosas em vários momentos e a intenção de fazer um trabalho de valor artístico e humanista predomina sobre os interesses comerciais. Mesmo assim, houve lucro. Com orçamento considerado barato (3,4 milhões de dólares), este trabalho chegou a receber duas indicações ao Oscar.

Se você viu o filme, opine, interaja no site do GEA (Grupo de Estudos sobre o Amor): www.blove.med.br .

Em tempo, para que não fiquemos apenas na ficção: Sandra Figueiredo, assídua participante do GEA, informa que o pai de uma amiga decidiu deixar o cargo de professor numa universidade para cuidar 24 horas da esposa, recém diagnosticada...

2 Comentário(s) desse artigo

1. Rosário
23/08/2008

Achei muito conveniente e interessante o terceiro parágrafo do texto... "...É necessário uma exponencial nobreza de espírito para que a pessoa consiga ver além da embalagem do corpo, senecto...........e que não se abalam com a DECREPITUDE EVOLUTIVA......" O ser humano, normalmente, volta-se para a matéria.... É necessário que o AMOR se sobreponha à RAZÃO, em casos semelhantes a esse do filme...(uma pequena, mas importante crítica aos que acreditam que o idoso é um trapo velho e deve ser descartado com a decrepitude evolutiva...). Rosário.

2. Professor Washington beraldo Sumaré SP
23/08/2008

Na verdade o sentimento de amor sofre mudanças de acordo com o período, acontecimentos e dependendo do contesto temos uma determinada concepção sobre ele mas existem aquelas pessoas que o conhecem de forma bastante peculiar e o mantem e até mesmo passa o adiante desta forma talvez seja por este fato que em alguns casos passa a ser bastante duradouro enquanto outros não.

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